Sexta-feira, Março 09, 2007

What the fuck are you doing here with me?


O meu nome é David Locke, mas bem que poderia soar a outra coisa qualquer. Aceitam-se sugestões. Robertson? Seja. A meu favor a benção da semelhança física, uma agenda profissional a respeitar e vários países a conhecer - o que poderá correr mal? O fundo já se encontra ao meu redor, portanto daqui só cova.
Assim preparem os rituais, divirtam-se e esqueçam Locke. Se é para correr a vida atrás de sombras, que seja noutros sapatos. O resto são dias.
E contudo.. ela! Pergunto-me que raio faz ainda aqui comigo...

Profissão: Repórter - Michelangelo Antonioni (Palma d`Ouro no Festival de Cannes, 1975)

R.C

Quarta-feira, Janeiro 31, 2007

Angola, quem te viu

Novembro de 1975

- Um soldado negro aproximou-se de mim e disse: "Oh branca, o que fazes ainda na minha terra? Vai-te embora senão corto-te aos pedaços!"
Estava assim a guerra civil em Angola, diz a minha avó enquanto olho para um dos muitos quadros "desse tempo" que temos no escritório da nossa casa, em Portimão. É uma fotografia picada sobre Luanda, desnudando a baía magnífica que, pintada pelo oceano atlântico, viu crescer a minha família. Quanta beleza.
Mas se o estético era agradável, a segurança era mais do que útil - prioritária. Foi nesse contexto que a família Coelho teve de se decidir pelo inadiável: Ameaçada pelas balas que a UNITA e o MPLA disparavam pelo país, pegou em alguns haveres (poucos) e fugiu num navio rumo a Portugal. Pensavam eles que poderiam voltar para casa logo que possível, mas a verdade é que desde esse longínquo Novembro que nunca mais puseram os olhos na terra onde nasceram.

Janeiro de 2007

Quando moravam em Luanda, os meus pais viviam sem qualquer tipo de luxos. Pelo menos no conceito que os nossos olhos entendem. Mas para a maioria dos olhos angolanos, eles possuíam um bem que, hoje, percebe-se o quanto tinha de inestimável: água potável.
Hoje, em pleno século XXI, as várias investigações feitas no terreno revelam que mais de metade da população angolana não tem acesso a água potável. Parece mentira mas o facto é que, 3 décadas volvidas, as condições de higiene e saneamento básico da população angolana continuam transversalmente miseráveis e as pessoas morrem (como morriam) vergadas a doenças endémicas como a cólera.
E o que faz o Estado quanto a isto?
Bem, perguntemos ao Senhor-Presidente-Vitalício-Todo-Poderoso José Eduardo Dos Santos - quem melhor para nos satisfazer esta curiosidade!?
Mas, vai daí, talvez o líder do MPLA esteja tranquilamente ocupado em "negociatas" de diamantes e petróleo com americanos e franceses, aproveitando para ir engordado no "Miami Beach" (nome sensacional para o seu restaurante em Luanda) e alimentando o seu polvo aterrado desde 1979 no centro da capital. Cidade-mentira, esta, que engole o sofrimento das favelas periféricas e do resto de um país que parou no tempo às mãos de um poder corrupto.

Num país tão rico em recurso naturais e com uma das economias mais frágeis do mundo, pouco mais há a dizer. Quanto à minha família, vai-se deleitando com memórias e quadros de um tempo que já não volta para o que era bom, e que cristalizou no que era mau.
É o drama de Angola.

R.C

Terça-feira, Janeiro 09, 2007

os melhores filmes de 2006

3 meses de silêncio.

Sem nenhum de nós perceber muito bem porquê, há cerca de 3 meses que foi escrito o último texto neste blog. Porquê, interrogo-me.
Talvez estivessemos todos muito ocupados com o "fazer nenhum" que o verão sugere. Talvez o recomeço das aulas nos tenha varrido de tal forma o tempo que ninguém tivesse disposição para vir aqui escrever. Talvez o blog não estivesse a corresponder às expectativas que cada um de nós criou sobre ele. Talvez.
Pois bem, ano novo - vida nova. Abanemos este vegetal - sem vida própria desde Setembro passado.
O ano cinéfilo de 2005 foi atípico. Após um ano de pura viragem para dentro (por exemplo nos óscares de Hollwood), 2006 foi marcado pelo ressurgimento em força dos blockbusters em detrimento do cinema de autor. E vocês, consideram que este ano cinéfilo correspondeu às vossas expectativas? Ou não ficaram preenchidos com a oferta?
Na vossa opinião, quais os melhores filmes do ano que terminou recentemente?
Proponho que cada um faça uma lista com os 10 melhores filmes que tenha visto em 2006, de forma a termos aqui um tribunal cinematográfico que nos leve a algumas conclusões.

p.s - Esqueçam os filmes que entraram nas contas da edição passada dos óscares de Hollywood. Embora alguns tenham estreado em 2006, façam pontaria apenas para os que irão entrar nas contas da edição deste ano, dos Globos de Ouro e que já figuraram, por exemplo, no festival de Cannes.
Eis a minha visão da coisa:

1 - Inflitrado, Spike Lee
2 - The Wind that Shakes the Barley, Ken Loach
3 - O Tigre e a Neve, Roberto Benigni
4 - Paris je t`aime, 20 realizadores
5 - Dans Paris, Cristophe Honoré
6 - Carros, John Lasseter
7 - Maria Madalena, Abel Ferrara
8 - The Departed, Martin Scorsese
9 - O Perfume, Tom Tykwer
10 – Babel, Alejandro Gonzáles Iñarritu
A todos um bom natal.
R.C

Quinta-feira, Setembro 07, 2006

Erasmus da marmita

Três elementos unem esta pequena história: A Residência Espanhola – Erasmus em Leuven – As Bonecas Russas. Ou talvez dois elementos: cinema e experiência pessoal. Ou talvez o mais correcto será dizer que é mesmo um só tema: Erasmus.
Seja como for, tratam-se de três fases. Uma “pré fase”. Uma “fase de vivência”. E um “pós”.

Na “pré fase”, podemos ver a minha pessoa sentada num sofá, sozinho, a ver o filme A Residência Espanhola – que relata o Erasmus de Xavier em Barcelona. Esta pré fase foi posteriormente repetida várias vezes, mudando só o contexto – ou mais pessoas no sofá, ou outro sofá, etc. Tratou-se então da inserção de um pensamento na minha mente: «fazer Erasmus deve ser bem bom». E era assim martelado na minha cabeça cada vez que carregava no Play para ver o filme… Acabou então por se tornar realidade. O que quer dizer que passamos à fase seguinte.

Nessa “fase de vivência”, podemos ver de novo a minha pessoa, igualmente sentada num sofá. Mas num sofá diferente. Preto e do Ikea. Confortável até duas semanas. Era o meu sofá, no meu Erasmus em Leuven. Neste sofá, neste Erasmus, nesta cidade, as vivências foram vividas. Amizades incontroláveis, ensinamentos a dever uma vénia, deambulações sentidas. Um ano que marca em todas as vertentes. Um ano que mais parece uma vida... ou talvez um só dia. Passou rápido, bem como lento. É difícil explicar. Afinal de contas é uma “fase de vivência”. Só ao ser vivida pode ser explicada, ou talvez seja melhor dizer: sentida.
«Alguém: Então como é que foi esse teu ano de Erasmus?»
«Eu: Pois, olha, foi muito bom… Mesmo muito bom (ao mesmo tempo que me pergunto o que dizer, que episódio contar dos milhões que há para contar? … Não vale a pena…)»
«Esse alguém: Mas gostaste?»
«Eu: Muito. Muito mesmo»
Não dá… É uma experiência para ser vivida. Sem clichés. Sem igual. Sem explicações. Fazes dele o que queres, e vives o que tens a viver. E é então que se dá a terceira fase. O “pós”.

Voltas com as ideias todas trocadas. Bem como sentimentos. Mas não interessa. Sentes-te outro. E tão bem que te sentes. Como explicar? Também não vale a pena tentar. Tu sabes. Sentas-te no mesmo sofá da primeira fase, dentro da mesma casa, com o mesmo ambiente, com todos os cantinhos iguais a como conheceste toda a vida. Ligas o leitor de DVD e pões o volume II d’A Residência Espanhola – intitulado As Bonecas Russas – para ver o que sentes ao assistir ao “pós” de Xavier. Talvez aquele que tu sentes. E não é que acabas de ver e pensas: «Não percebo. O filme ou o “pós”? O filme até é bom. É o “pós” do Xavier que não percebo, portanto. Ou talvez a história não seja sobre o seu “pós”.» Mas é… Pois o “pós” não é desilusão nem fantástico. É simplesmente o “pós”. Diferente porque estás diferente. Mas, de resto, será sempre o “pós”.


P.S. – Tanto o título como o texto não reflectem nada de nada… da mesma maneira que Erasmus não é nada, ao mesmo tempo que é tudo. Um pequeno “Mulholland Drive” para o Desvio do Pensamento.

J.A.

Terça-feira, Setembro 05, 2006

The Fountain of Aronofsky

Dois filmes enquanto estudante [Supermarket Sweep e Protozoa], Pi em 1998, Requiem for a Dream em 2000, alguns anos de uma luta cinematográfica… e a chegada de The Fountain. Darren Aronofsky, um dos mais importantes ícones do cinema independente dos nossos dias, apresenta finalmente o seu último filme no Festival de Cinema de Veneza. Para quem não o conhece, basta indicar duas obras suas: Pi e Requiem for a Dream. É só preciso alugar, inserir no leitor de DVD, aumentar bastante o som, sentar num lugar confortável e ver de rajada as suas duas obras-primas. Peças únicas e originais que iriam provocar os mais incessantes louvores da crítica cinematográfica mundial.

Em Pi, Darren apresenta-nos as psicoses de um homem, Max Cohen (Sean Gulette), que se dedica à matemática. Mais propriamente à sustentação de uma teoria que diz que a partir da fórmula Pi podemos prever a Bolsa, desvendar os segredos da religião judaica ou até provar que o mundo que se apresenta aos nossos olhos é baseado a partir desta fórmula. Um filme cru, psicótico e forte. Desde a excelente montagem ao respeitável trabalho de actores, passando pela banda sonora, história e planos, Pi choca e tem de ser digerido. Darren seria vastamente elogiado.

Em Requiem for a Dream, tudo o que Pi tinha incitado na sua original estrutura cinematográfica, volta para deixar qualquer um boquiaberto. Kronos Quartet juntam-se a Clint Mansell na banda sonora, que decerto se lembram. Todo o conjunto de armas que Darren usou para filmar e editar esta obra, foram posteriormente admiradas e louvadas pela crítica e outros cineastas – planos, montagem, cenários, iluminação, maquilhagem… tudo tem os seus pormenores de fascínio. Já quanto ao trabalho de actores, Ellen Burstyn, Jared Leto e Jennifer Connely brutalizam a cada instante as suas personagens. A história vem do poderoso livro homónimo escrito por Hubert Selby Jr., que se sentou ao lado do realizador para intensificar esta passagem para o mundo do cinema. Divide-se em duas acções que se interligam, que são: as vidas do jovem Harry Goldfarb (Jared Leto), e da sua avó, Sara Goldfarb (Ellen Burstyn). A primeira acção baseia-se num romance entre Harry e uma antiga colega de turma, Marion Silver (Jennifer Connely); no dia-a-dia com o seu melhor amigo; e ainda nas suas “trips” pelo mundo da droga. A segunda acção relata o “sonho de aparecer na televisão” de Sara e as suas “trips” de ecstasy, causadas por uns comprimidos para emagrecer. A junção destas duas acções é explosiva. Um filme de visionamento obrigatório. Fortíssimo e realista, deixando qualquer coração a bater mais rápido depois dos seus 102 minutos.

Com um passado deste tipo, Darren Aronofsky passa então para a realização de um épico de ficção científica, romance e drama. O argumento é escrito pelo realizador e baseia-se na história da busca pela fonte da juventude. Darren apresenta-nos três acções, em três séculos diferentes, onde o mesmo personagem, Thomas (Hugh Jackman), tenta de forma incessante salvar a mulher que ama, Isabel (Rachel Weisz). Como é apresentado no site oficial do filme, «as três histórias convergem numa única verdade, sendo que o Thomas de todos os períodos – o guerreiro, o cientista e o explorador – encontra-se com elementos como a vida, o amor, a morte e a reincarnação». The Fountain estende-se por uns curtos 96 minutos e conta com Rachel Weisz (The Constant Gardener) e Hugh Jackman (Wolverine em X-Men) nos papéis principais. Ellen Burstyn (The Exorcist, Requiem for a Dream), Mark Margolis (Pi, Requiem for a Dream) e Sean Gulette (Pi, Requiem for a Dream) voltam a atacar. E Clint Mansell retorna aos comandos da banda sonora, juntando de forma interessantíssima os americanos Kronos Quartet com os escoceses Mogwai.

Entretanto, as críticas já começam a aparecer – desde as 12 críticas positivíssimas em rottentomatoes.com até à opinião interessante de Vasco Câmara no Público (Seg.04.Set), em que afirma que «seis anos depois de ter nascido como projecto, talvez tenhamos de olhar para The Fountain, a espaços fascinante, quase todo ele danificado, como um requiem por um sonho», como «um trailer de um filme que não chegou a ser feito». Pois The Fountain nasceu como projecto há 6 anos entre Darren Aronofsky e Brad Pitt, mas este último acabaria por desistir. Os fundos foram reduzidos e o projecto abandonado. Foi então vislumbrado numa noite em branco – como o realizador revela numa entrevista a Daniel Robert Epstein – repensado durante duas semanas e concretizado de uma outra forma, mais à moda do cinema independente, de que Darren parecia descolar-se. Uns já lhe chamam o próximo Stanley Kubrick, outros revelam que esta última obra deixou graves feridas do projecto inicial. Seja como for, todos clamam a soberba qualidade dos alicerces cinematográficos apresentados por Darren Aronofsky em The Fountain, bem como os poderosíssimos papéis concretizados por Hugh Jackman e Rachel Weisz.

Fico então à espera que Darren traga a sua fonte para os cinemas portugueses.

J.A.

Segunda-feira, Julho 24, 2006

Chokmah

É o alheamento total, que poucos conseguem, porque a sociedade não o permite. Torna-se, assim, necessário, para a obter, um afastamento de toda e qualquer possibilidade de influência.

Desmesuramento adequado.

Como é que é possível? É simples: é o cultivar de interesses, ser curioso, sentir a necessidade de descoberta, olhar para uma paisagem qualquer e reflectir. É afastar a inacção.

Será exequível tê-la em todo o seu esplendor? Penso que ja terão existido seres suficientemente afortunados para a terem gozado o mais possível, contudo dou mais valor aqueles que nunca a possuiram por completo, partilhando com outros curiosos a peça do enigma, que têm em seu poder, o que permitirá a criação lenta, no entanto cuidada da resolução dessa instância. Não reconheço como seres benéficos para a humanidade os seres que ja a gozaram e porquê que é assim? É assim porque a verdadeira essência deste conceito nao é passa pela sua posse por inteiro, mas sim de um partilhar de experiências de forma a poder auxiliar a uma evolução do Homem como ser racional que é.

Desta forma, o facto de se ser possuidor desta iluminação acaba por ser uma hipocrisia, na medida em que nunca ninguém partilhou a resolução do enigma. Porque será assim? terá sido por egoísmo ou simplesmente o reconhecimento que todos deverão busca-lo numa demanda solitária? O que é que isto proporciona? Leva-nos a encruzilhada entre a opressão provocada pela sociedade, que, enquanto reprime esta universalidade, tenta simultaneamente substitui-la com outras directivas que levam ao sentido oposto do conceito.

P.S. Não se deixem levar pela sociedade. É esta a minha contribuição para a resolução do enigma.

L.M.

Terça-feira, Julho 18, 2006

A Palavra

Uma relação entre dois seres humanos distintos mas com um denominador comum: o sofrimento.

É nesta base que assenta “The secret life of words”. Uma base movediça, uma base que oscila entre a alegria genuína e a mais profunda das tristezas.

Toda a acção se desenrola numa plataforma petrolífera. Josef sofre um acidente e perde temporariamente a visão. Uma visão turva, uma visão sofrida, uma visão que levou Josef ao abismo.
Hanna é uma mulher enigmática. Uma enfermeira com uma cara angelical e um olhar perturbador que ficará com a árdua tarefa de tratar Josef.

Aos poucos a relação torna-se especial, cada vez mais especial… E é neste contexto que as palavras se juntam e as histórias pessoais comungam uma com a outra.
Por detrás do mistério de Hanna, refugiada da ex-Jugoslávia, está o trauma da guerra. Uma guerra que lhe levou a melhor amiga. Uma guerra que lhe roubou a audição e a inocência. Uma guerra que a maltratou e lhe deixou marcas profundas.
Na sombra de Josef está a paixão pela mulher do seu melhor amigo. E é nesta paixão que se esconde o grande segredo: afinal, o “acidente” não teve nada de acidental. O estado de Josef é fruto de um passado tortuoso, de enganos e, acima de tudo, da crueldade da verdade.

É na força das palavras, na sua “vida secreta”, que duas histórias de dor acabam por convergir numa única história de amor. Um amor cego disposto a quebrar barreiras e adormecer medos.

Realizado por Isabel Coixet, com desempenhos fantásticos de Tim Robbins e Sarah Polley, “The secret life of Words” guia-nos a um universo onde o amor surge na palavra, vive na palavra e morre nas palavras.

P.R.

Sexta-feira, Julho 07, 2006

A Deusa Música

Há filmes cujo título reclama o culto, por antecipação.
Não se limitam a pedir, reivindicam-no.
“De Battre Mon Coeur s`est arrêté ” podia ser apenas mais um filme francês com um título giro. Mas é mais, muito mais do que isso.

Thomas Seyr (Romain Duris – Residência Espanhola) é o seu rosto. Emana a figura de um trovão, cujos relâmpagos avinagrados sorriem-nos, de perfil. Não há trovões simpáticos, mas há mais do que trovões em Thomas (Tom).

Nele há sonhos e poesia. Encontramo-los escondidos nas sombras que a morte da mãe pintou na sua respiração, cobrindo-os com a capa de uma vida suja alugada ao pai.
Deste herdou o caminho dos negócios imobiliários, epicentro de uma vida caótica e virulenta, aqui e ali salpicada por gotas melódicas que limpam a lama do seu espelho.

Barulho, doença, Parkinson, musica electrónica, o pai.

Equilíbrio, graça, Yoga, musica clássica, a mãe.

Tom tem 28 anos e quer o que não mostra.
Quer trocar a corrupção por um sonho precoce.
O dinheiro pelo piano.
O Pai terreno pela Mãe que já descansa.
Jogos de pares, batalhas interiores, guerras de vencidos.

Neste filme rasgadamente psíquico, Jacques Audiard fala-nos do papel de cada um nas relações familiares. Atiram-se conceitos pela janela, reformulam-se postulados outrora instalados.

A personagem interpretada por Roman Duris preenche a trama de modo transversal, numa tempestade que lembra o de Niro enraivecido de Scorsese.
A sua actuação incomoda, enerva, desespera o espectador. Sem se aperceber, este passa a ser aquele.
Fisicamente, é nos seus dedos que encontramos a expressão máxima dessa batida cardíaca exasperante, galopando aos soluços rumo à falésia da sua existência. Mas também são aqueles que, regulados por um anestesiante vindo do sol nascente, produzem momentos de uma beleza devastadora na contemplação estética, esqueçamos a auditiva.

Quando a música é comunicação, motor de todas as coisas que precisam de algo que empurre ou trave ou nada.
“De Battre Mon Coeur s`est arrêté” cozinha um caldo atormentado de emoções que palpitam no coração de cada um a uma velocidade tão vertiginosa quanto próxima.

R.C.

Domingo, Junho 25, 2006

Pequeno Auto-retrato Num Desabafo Inutil

Quero pintar isto da melhor forma possível. Eu não preciso de ninguém. Eu preciso de alguém. Confuso? Talvez, mas nem tanto. Sou o maior filho da puta, o maior cabrão à face da terra. Sabem que mais? A verdade é que se eu não fosse um gajo tão sozinho, talvez ainda fosse mais sacana do que sou agora.
Sou uma besta. Nego o amor que existe em mim, viro-lhe as costas e desato a correr. Isto de se ser sozinho tem muito que se lhe diga. Congela-nos os pensamentos, corrói-nos o coração e cria-nos esquecimento onde deveria haver lembrança.
Quero ser aquele que está sempre bem, quero ser o que está sempre pronto para outra, mas ao fim de alguns anos, a coisa começa a cansar. Conheci tanta gente diferente, de tão diferentes meios, de ideologias opostas, de modos de vida tão contrários ao meu, e o resultado de todas essas experiencias é aquilo que eu sempre ambicionei: a solidão. Meus caros, estou farto, cansado e enjoado de ser sozinho. A solidão repugna-me.
Isto de eu ser assim, não é só burrice, é genético. Está-me no sangue o vírus da depressão. Há que usar protecção contra estas coisas.
O mal de tudo isto é que quando se quer falar com alguém, nada nos resta para além destes textos insignificantes que um homem vai escrevendo para combater a tristeza e a melancolia. A vida é muito chata na solidão. A solidão é enfadonha quando é a nossa vida. São as duas a mesma coisa, não é? Pois, é isso mesmo, a solidão é sempre a mesma coisa. Um dia hei-de experimentar a felicidade.
E quando eu descobrir o segredo
Da neblina cinzenta
Que torna a água barrenta
E sem perdão me esmaga o peito
E quando se levanta de repente
A névoa que cobre o rio
Que gela tudo de frio
E escurece a corrente
Longa se torna a espera
Na névoa que cobre o rio
Lenta vem a galera
Na noite quieta de frio
E quando...
E quando eu apanhar finalmente
O barco para a outra margem
Outra que finde a viagem
Onde se espere por mim
Terei, terei mais uma vez força
Para enfrentar tudo de novo
Como a galinha e o ovo
Num repetir de desgraças
Tim, "Longa Se Torna A Espera"
F.A.R.

Quinta-feira, Junho 22, 2006

Conflito Interior

A custumização,
Problematização da situação...
Compreenderão?
Penso que não.
Estarei a alucinar...
Não me consigo descomplexar.
Sinto-me enclausurado,
Sem refúgio.
Estarei perdido?
Preciso de rumo...
Onde o procuro?
As palavras escorregam pela caneta,
Intrometem-se na tinta
E transformam-se...
Produzem algo...
Será isto meu?
Serei eu?

L.M.

Segunda-feira, Junho 12, 2006

Rita

Procurei-te em todo o lado e em todo o lado te encontrei. Nas árvores, nas flores, nas ruas e avenidas, no rio. Andei como quem não queria chegar a lado algum. Desesperei.
Queria fugir de ti. Tentei distrair-me olhando para as mulheres que passavam por mim, mas todas tinham os teus lábios, a tua boca, o teu rosto.
A cidade perde a sua vida sem ti. Os carros chocam, as flores murcham, os jardins morrem.
A intensidade dos momentos do passado, desvaneceu-se com o vento. Agora nada resta em mim senão uma leve recordação dos tempos em que eras minha...e eu era teu.


“Foge comigo na última volta da maratona, nada comigo num lago indeciso de metadona. Já deixei as asas na cave da casa e as chaves no fundo do mar: com um pouco de sexo, ou muito poesia, ainda nos vamos casar.”
J.P.Simões
“Nada é irremediável.”
F.A.R.

Sexta-feira, Junho 09, 2006

Das Cinzas

Continuas a ser única. A única. Apesar de tudo.
Pensa o que quiseres, já nada sinto. Bem sei que achas que não cresci, que não evoluí e que continuo o mesmo menino perdido e carente de sempre. Até pode ser verdade, todavia, há também outra verdade.
Inspiras-me. O teu rosto inspira-me. Os teus gestos calmos, suaves e sábios atraem-me. Escrevo este texto porque estive contigo há momentos. É sempre nobre ser o motivo para um novo conjunto de palavras, não achas? Mesmo que sejam estas palavras gastas e cansadas, mas qua são minhas. E são para ti.
Nunca me refiz do nosso amor. Foi há dez anos. Este amor é como um perfume intenso que custa a passar. Está grudado nas minhas roupas, no meu corpo e no meu coração.Estás em mim.
Sei que tens outra pessoa e que estás bem. Não suporto que estejas bem, sobretudo, porque estás bem com outra pessoa. Aliás, nem sei qual das duas será a pior. Até estás muito melhor do que quando estavas comigo, confesso. Acho que já me habituei a estes sentimentos. Ao longo destes anos lá tive que me acostumar a ver-te com outros. A ver-te a amá-los. Eu também amei outras pessoas, é certo, mas foi sempre com aquela sensação estranha de te estar a trair a ti. E no fim nada restava. Só tu.
O nosso amor nunca acabou. Eu é que acabei com ele. Quando quis voltar atrás, já era tarde. Já tinhas ido embora.
Adorava quando me tocavas a Rainbirds do Tom Waits ao piano. É uma das mais lindissímas músicas de sempre, não achas? Tu sempre discordaste...
Hoje passas por mim indiferente e com aquele ar altivo que quase te odeio tanto como te amo. Se estes anos serviram para alguma coisa, foi para isto: para assumir a culpa. E por saber que nunca mais te vou ter, é que te escrevo esta carta, por ter a certeza de que eu morrerei com os remorsos, mas que tu, um dia, hás-de morrer com a plena consciência de que foste tu que me mataste!
"Love is blindness
I dont want to see
Won't you wrap the night
Around me
Take my heart
Love is blindness"
F.A.R.

Quarta-feira, Maio 31, 2006

O teatro dentro de ti

O medo é um actor. Esconde-se.
As palavras? Filhas desse actor.
Atiramo-las à nossa frente porque temos medo do escuro.
Seguimo-las para que reconheçam o percurso que ignoramos. E elas tropeçam e caem e lutam para que cheguem onde nos esperam. Em paz.
Pua chata ou mel auditivo, acabam por vencer. Na maioria das vezes, num braço de ferro doentio que rompe o namoro com o tempo. Um jogo praticado na distância em que a saudade chora e os seus lamentos esbarram no eco do nada.
O amor? Por detrás das palavras, em luta contra o medo. Debaixo dos conceitos e por dentro do pó que as gerações sacodem. Algures entre o fim e o depois, onde somos felizes por nada fazer sentido. Porque sim.
O medo? Frio, frio.. morre.
Deixa o calor atropelar-te nas noites em que as pedras de calçada anseiam por pisar-te, por cuspir-te. As pedras de calçada são dor e aguentam.
Nós também a conhecemos e, como aquelas, aguentamos.
E depois de aguentarmos, corremos. Corremos tudo até pararmos numa baliza empedrada onde derrubamos o medo que cai prostrado, pisado e cuspido.
Ei-lo só, como ele é por definição.

R.C.

Quinta-feira, Maio 25, 2006

Um Puzzle Para Reflexão Interior.

O vento é reduzido ao mínimo.
O dever provém do amor.
A droga floresce.
A individualidade sopra forte.
Os direitos humanos tornam-se impávidos e auto - destruidores.
A chuva fez o Homem evoluir.
O mal é alvo de preconceitos.
A amizade raramente é cumprida.
A politica provoca alegria a outrem.
A ciência é progressiva e arrebatadora.
O fogo suicida-se.
O amor inunda cidades.
O ódio deve ser salvaguardado.
A arte é violada constantemente.
O bem destrói sociedades.
A terra é um valor moral.
As pessoas queimam tudo o que conseguem.
A sociedade tem de ser apreciada.

L.M.

Sexta-feira, Maio 19, 2006

Eufemismos

O Nelas é o conceito.
Tem 24 anos e respira os mesmos 12 que o seu amigo Hugo. É letrado no darwinismo, conhece a evolução das espécies e procura combater a selecção natural. Vai daí, aproveita os momentos em que não está a palrear “espanelês” para salvar pássaros azuis indefesos de ataques ferozes por parte dos mais aptos.
Em seguida, tem por hábito desatar a correr à frente dos seus inimigos voadores enquanto grita “Cá-te já, cá-te já!!”. Dentro do seu carro nunca ouvirá nenhuma musica até ao fim e, se há coisa que lhe motiva (fora isso que vocês estão a pensar), é fazer um download do seu saco urinário e projectá-lo contra o vento. De preferência, na popa monchiqueira que pica o Algarve.

Falei do Hugo? Pois, o Hugo é o nosso cartão de visita perfumado.
Coimbra é a cidade do conhecimento, entre outras coisas, devido a uma facção das suas casas de banho ter ficado a conhecer o sempre refrescante vapor de vida que as entranhas do nosso huguinho costumam disparar.
Falamos de um al pacino neo-marroquino, alguém com postura de conversa séria às sextas à noite (sobre política) e que presume-se gostar bastante de espinafres e de raparigas que escavam ouro.

O Marcos costuma assistir a estas sonatas emerdadas com um conformismo liberal.
O seu sonho de infância é aproximar-se do Hugo e dizer-lhe “i will try to fix you!”. Contudo, o máximo que consegue é auto-esborrachar-se com um sorriso “yellow” que lhe relembre “pequenos momentos e repetições bonitas”. E é mau...

O Peixinho passou a fronteira. Já é pai de 2 ciclídeos e o mais engraçado é que ambos tratam-se por “nuestros hermanos”. Não é bonito?
Todavia, não são os deveres naturais de um peixe de família que vão impedir o nosso escamado amigo de se divertir. Antes pelo contrário, até porque desconfio que neste momento o papá Telmo (quem?) deve estar a jogar póker com o Miguel (Miguelinho AC) e o Hugo Viana (“lagarto”). Isto enquanto a sua txiquitita prepara um balde de tremoços que acompanhe a cervejinha que tanto abunda no seu aquário de mel. Mélito como diria o Alex!

Alex? Este tem uma unha espanhola.
Se pudesse, o berbiganito viajava de clio até ao camping com o tropix na cabeça, para de seguida tele-transportar-se juntamente com o Serrão para El Terrón. Uma vez lá, pediria esmola (esmolita) a algum espanhol para comprar uma mini. A ver se saía perfeita.
Gosta de deitar-se em pavimentos públicos e tem por hábito hibernar com o queixo virado para estrelas já de si meio enoevoadas, daquelas que não param quietas.
Lambada.

O Alentas está quase a chumbar a géneros por faltas. E, por falar nisso, receio que também esteja no limiar de pisar um bolo mal cheiroso numa qualquer rua alfacinha. E já que falamos em cordas bambas, o que dizer do teste de redes que, imaginem, quase lhe correu mal!
Quando é interpelado no sentido de afirmar quais os filmes que menos lhe tocam, responde com geografia e olha para a Baviera alemã. No sentido inversamente proporcional, o nosso companheiro costuma responder. “Oh tu, eh! Anda aqui! Closer!”

O Tarugo é um fantasista a gramática. Joga bonito (BUNITO?), usa com perícia as vírgulas e costuma deslocar-se a Viena para ir às compras.
Entre os produtos regularmente adquiridos nestas viagens a território austríaco, costumam contar-se vários pares de virilhas enlatadas. Marca registada “Arnold Lombos”.

David Barata traz o pão pela manhã aos nossos tímpanos desportivos. A sua veia José Mário
é indisfarçável e espera-se que o sonho o encarrilhe rumo à mancha britânica.
Um conselho, Barata: quando lá chegares tens de ter uma postura Cole, porque se te Robben é uma Drogba!

O Filipe e o Luís têm uma coisa em comum. Para além de AMAREM o Robert e o Marco Ferreira, não cortam o cabelo há aproximadamente 27 anos. Correm notícias de que o primeiro poderá ter desbastado hoje mesmo o seu poço al-sansão de criatividade literária. O Bowie vendeu o mundo mas.. o teu cabelo Filipe, o teu esfreg-cabelo!

E assim termino o meu repasto literário numa noite em que o conceito “olheiras” reforça o seu novo significado. É recente, tem 6 meses.

Olh = eslovenos; eiras = da merda que não se calam um minuto e ainda por cima tresandam a brandymel. Mel?
Um abraço johny!

R.C

Terça-feira, Maio 09, 2006

Porquê?

Como é que possível doer?
Porquê?
Que dor é esta que me avassala, que me tenta destruir?
Sinto a pressão da vida a remoer-me as vísceras
De uma forma horrenda e devastadora...
Porquê?
O que se passa comigo?
O que é isto?!
Esta sensação de responsabilidade e desmotivação, que eu repudío,
que sinto a sugar-me todas as gotas de liberdade que tenho em mim..
Que me diminui e me faz sentir pequeno
Perante a imensidão do mundo
E da destruição que este nos trás...
PORQUÊ?
Qual a razão disto tudo me acontecer a mim?
Sinto-me como uma formiga a vaguear pela cidade
A tentar fugir por entre os passos das pessoas inertes e ignóbeis
A escapar à morte como se de nada mais se tratasse na vida dela..
A tentar sobreviver...!
A procurar um meio de fugir deste buraco negro que me tenta asfixiar
E não me deixa percorrer o caminho que quero...
Quero fugir e estou enclausurado num emaranhado de armadilhas mortais
Qual é o interesse?
Porquê que me querem tirar todas estas sensações, que me fazem ser eu?
Que me fazem sentir o ar puro pela leveza da manhã,
Ou o travo de um de shot de Tequilla em plena bebedeira monumental...
O sofrimento em mim acumula-se ao ponto de querer explodir
E libertar-me desta ruína que é a vida,
Que só tem o intuito de nos destruir,
De nos fazer ser o que não somos!
PORQUÊ?
L.M.

Domingo, Maio 07, 2006

Mais 10.000 dias de prazer

Um dos projectos mais criativos e originais que alguma vez conheci na minha vida. Os Tool estão de volta para demonstrar o peso certo da música pesada. 10.000 Days (2006) é o último trabalho deste quarteto californiano que, mais uma vez, nos apresenta um som puro, limpo, único, harmonioso, pesado e perturbante.

Os Tool formaram-se em 1990 em plena “cidade dos anjos”, Califórnia. Em 1992, lançavam o seu primeiro trabalho – o EP Opiate. Um álbum demonstrativo do “metal cerebral” por onde este projecto se iria iniciar. Logo no ano seguinte, Undertow (1993) viria a definir o som dos Tool num território só deles. Um espaço em que mais nenhuma banda alguma vez tinha estado e que, a meu ver, mais nenhuma esteve até hoje. Uma mistura de influências como Pink Floyd, King Crimson, Led Zeppelin ou Yes, transportadas para um tipo de metal marcadamente dos anos 90. Maynard James Keenan, Danny Carey, Justin Chancellor e Adam Jones abririam então caminho para um som específico e ímpar, com uma originalidade intocável, na obra-prima constituída pelo álbum Ænima (1996). Uma sequência de 15 faixas que flúi de uma maneira demasiado singular e perfeita. Cada faixa assemelha-se a uma tragédia clássica, com andamentos progressivos altamente bem construídos e clímaxes poderosíssimos. Este seria sem dúvida o ponto alto da banda. Seja como for, os Tool voltaram a não desiludir com Lateralus (2001). Uma evolução perfeita no som que construiriam neste álbum. Sente-se já uma bateria definidíssima por parte de Danny Carey – talvez um dos 3 melhores bateristas de sempre, ao lado de John Bonham dos Led Zeppelin e Dave Lombardo dos Slayer e Fantômas. Contratempos quase impossíveis que este senhor constrói, acompanhando a voz especial e muito bem trabalhada de Maynard James Keenan; o baixo cada vez mais elaborado de Justin Chancellor; e a guitarra psicadélica e ambiente de Adam Jones.

Como som final, de conjunto, de banda, os Tool apresentaram sempre uma coesão excelente. Talvez muitas vezes a fazer esquecer o trabalho de cada um deles para cada música composta, o que a meu ver é dos conceitos mais importantes a suster num projecto musical de uma banda.

Depois de espectaculares vídeo-clips produzidos pelo guitarrista, Adam Jones, DVD’s, edições especiais e todo o tipo de gravações rascas, ao vivo, etc. os Tool voltam a surpreender e a oferecer de novo aos seus fãs um arrepio na espinha, com o novo álbum 10,000 Days. Mais uma vez, um som puro e limpo; excelente composição e originalidade; perfeita execução; e uma muito boa produção e masterização. 10,000 Days vem assim, na minha opinião, destronar qualquer tipo de projecto que se digne na chamada música pesada, metal ou progressiva.

E assim, de uma coerência excepcional, lá vão continuando os Tool a surpreender...

J.A.

Sábado, Maio 06, 2006

Uma Noite de quase Verão...

Estavamos a fazer o chamado zapping radiofónico e porquê? Porque o meu carro o que tem mais é cd’s riscados, por maus tratos e sobretudo por falta de consciência da minha parte. O tal zapping levou à nossa audição da frase: “O povo está optimista...” óbvio que nao ouvimos o que sucedeu a esta frase, contudo começamos a divagar de forma compulsiva e determinista. Eu cá para os meus botões comecei a pensar: “Ganhar a lotaria é que era” no entando reparei que também o disse e não o pensei apenas, com esta deixa o meu companheiro desta vicissitude psicotrópica rapidamente sustentou afirmando que deviamos era jogar no Euromilhões e assim ficavamos tranquilizados durante uns bons anos, isso é que era optimismo! Não o estado caótico no qual vivemos!

No entanto a conversa, vulgo anhadela, prosseguiu de forma alucinante, e entrando no mundo das apostas qual o melhor a escolher? Uma ida ao casino obviamente, mas de forma segura, apenas com 25 euros e se ganhassemos alguma coisa tudo bem, se perdessemos tudo bem na mesma! Cá está de volta o optimismo redundante.. Divagámos um bocado a pensar nos viciados em apostas e como é que é possível que isso aconteça ainda hoje em dia, pessoas enterrarem-se em dívidas de forma absurda e completamente mafiosa sem terem a noção de que estão a destruir-se a eles próprios e às próprias familias também!

Prosseguindo com a conversa, chegamos à conclusao que o país está uma bela porcaria, para não dizer um palavrão que seria certamente o mais adequado, e por isso toca-nos a nós fuma-las de forma a podermos tentar esquecer este mundo surreal onde vivemos, isto levou à recordação dum desvairo psicotrópico em específico, que nos elevou as nossas mentes capitalistas e consumistas, aliadas a uma fome descontrolada, e por isso que fizemos nós num Domingo à tarde naquele estado ébrio? A resposta é a mais óbvia possível! Fomos à instância comercial que dá pelo nome de Lidl e desatamos a comprar chocolates, bolachas e obviamente o RedBull do Lidl que custa uns meros 60 centimentos de euro. Eu próprio comprei um saco cheio de mini Kit-Kats, uma caixa de saborosíssimas bolachas americanas, das quais não me lembra a marca, o que não é nada bom porque merecem publicidade de tão saborosas que são! E, finalmente, comprei um RedBull ao preço da chuva que me soube a ginjas!

Contudo isto não fica por aqui, até porque nessa mesma tarde quem tava comi comprou também uns bolos que estavam extramamente bem selados e chegamos a uma conclusão extremamente pertinente e completamente racional e lógica que é a seguinte: “o vácuo conserva bem” à qual vem seguida por uma frase mais do que espectacular e que terminaria a conversa: “Pois, por isso é que convém fechar o saco do pão, senao o pão não conserva”. E foi assim, uma noite de quase verão...

Conclusão... este é um texto sobre nada. Acabaram de perder tempo precioso da vossa vida a ler sobre nada, o que vos parece?


Agradecimentos a:

R. R. (Companheiro da Conversa);
Fornecedor da Substancia Psicotrópica.


L.M.

Domingo, Abril 30, 2006

Irreal Social

Eu odeio centros comerciais. No outro dia perdi-me e fui parar a um desses fantásticos edíficios, ainda para mais, na margem sul e cujo o nome não menciono para não fazer publicidade (só mesmo porque não quero!). A certa altura dou comigo a pensar: todos os centros comerciais são iguais. Sim. Eu sei. Não é preciso ser um génio para chegar a esta conclusão. Contudo, o meu raciocínio levar-me-ia mais longe: se todos os shoppings (também odeio estrangeirismos), esses colossos de consumismo espalhados por todo o país, são iguais, então, todos os seus visitantes ou clientes habituais serão igualmente, iguais, passe a redudância. Esta rudimentar teoria seria confirmada.

Dei uma volta por esse centro comercial e vi as coisas do costume: o namoradinho com ar de cromo e calças baratas à portuguesa, vai com o bracinho em cima dos ombrinhos gordos da namorada horrorosa. Tão angelicais que eles são:ela, com aquele sorriso de Mona Lisa arrependida e ele com aquela cara de quem nunca tinha estado ali. Uns inúteis!
Mais à frente paro junto de um cinzeiro para fumar um cigarro (num centro comercial tem que se fumar muitos cigarros), e constato que todos os que passam por mim se vestem da mesma maneira. As mesmas marcas, as mesmas cores. O que me levou, consequentemente, a esta ideia: com tantas lojas diferentes, e andam todos com as mesmas roupas, isto deve querer dizer que há lojas que vendem às toneladas e outras que nem um miserável parzinho de meias vendem a um velhote decrépito! Percebem a ideia?

Num outro corredor, um novo casal de namorados. Estes com ar de casados, aquele ar de frete do tipo: “antes isto que ficar a noite toda a ver a TVI e a morrer de tédio”. Estes gajos, garanto-vos, não sabem o que é sexo há um ano e andam para ali com aquele ar de comprometidinhos como se o amor fosse compromisso. Ele, tem ar de companheiro. Não parece ser namorado ou marido. É companheiro. Ela, enfim, assemelha-se muito ao estilo noiva-cadáver, o que nem é assim tão mau, isto é, há pior, ou seja, ela é horrivelmente feia mas ainda assim conheço casos mais críticos.

Não posso com esses individuos com ar de companheiro. Companheiro é, certamente, o pior adjectivo que uma mulher pode utilizar para caracterizar um homem. Se uma namorada minha se referisse a mim nesses termos, estaria tudo terminado. Meninas, desenganem-se! Eu não sou companheiro de ninguém. O companheiro é aquele que acompanha, o que me faz lembrar a palavra acompanhante. Acompanhante, para além de prostituto, também pode ser utilizado como peça decorativa, dependendo dos contextos. Ora! Eu não sou uma peça decorativa!
Passo discretamente por esses majestosos corredores de lojas. As montras, nem dou por elas. Penso: “sou um anti-social. Não gosto de nada, não gosto de ninguém. Sou aquele que simplesmente não encaixa. ”Já nos anos 70, Patti Smith cantava: “Out of society, they’re waiting for me//Out of society, that’s where I want to be”. É isso que eu sinto. Sinto que estou fora da sociedade, e penso nisso como se fosse um crime. É este tipo de repressão que eu vivo em tudo o que faço. Eu não gosto de feriados, de épocas festivas nem daqueles bailinhos da terrinha da nossa infância. Eu não gosto de desportos radicais, ginásios nem música de merda. Eu não gosto de aniversários. Nunca vou a funerais. Casamentos, nem se fala.
Sou um anti-social. Que dúvidas restarão?

Este tempo é-me estranho, estes sítios são-me estranhos. Olho para os outros, os que passam por mim, parecem-me bem sucedidos na vida. São pessoas perfeitamente inseridas no sistema. Putos de vinte e tal anos, uns acabaram os cursos outros não, já todos casados, com filhos irritantes aos berros, provavelmente com um carro que não podem pagar e a fazer compras com cartões de crédito. Acho que já deu para perceber que não gosto muito desta gente, certo? Pois bem, no entanto, acho que eles é que são bons. Mais: acho que são melhores que eu. Eles conseguiram sobreviver com o sistema. Eles adaptaram-se. Eu não. Mesmo sabendo que eles não sabem nada. Mesmo sabendo que são meras marionetes. Acho que todos esses acomodados vivem melhor do que eu. A última grande preocupação destes gajos foi: “Meu Deus! Já constroem mais centros comerciais que estádios! Onde é que isto vai parar!”. Ou então têm conversas intensas acerca de uma telenovela juvenil qualquer.

Eu, cá por mim, ando sempre preocupado com alguma coisa. Nem que seja uma notícia num jornal sobre a baleia-xpto-que-está-em-vias-de-extinção-num-mar-qualquer-longínquo-que-ninguém-sabe-onde-fica. Eles não. Eles andam felizes, ou pensam que andam felizes, ou qualquer coisa que os valha. Eles ouvem Michael Bublé (será assim que se escreve?), eu oiço Frank Sinatra. Eles ouvem James Blunt (a revelação do ano, segundo a MTV), eu oiço Neil Young. O que me vale a mim conhecer as obras completas de Piaf ou Brel? E por outro lado, que culpa tenho eu de não gostar daquilo que todos gostam? E ainda assim, nem sei porque é que não gosto dessas coisas, pelo menos, se me pedissem para explicar, eu não o saberia fazer.
Só sei que tenho tendência para odiar aquilo que os outros gostam e é por isso que odeio centros comerciais. Porque lá é tudo diferente de mim e eu não me revejo em nada, e para agravar, todos os que passam por mim parecem cópias uns dos outros. Ou serão os centros comerciais que são cópias uns dos outros?

Qual o objectivo deste texto? Não sei. Mentira. Sei, mas não vou dizer porque sou um artista.


Curiosidade: (completamente desinteressante e que ninguém vai ler porque desistiram todos a meio) Este texto foi escrito ao som de No More Shall We Part de Nick Cave & The Bad Seeds.

Agradecimentos: Nick Cave & The Bad Seeds, Centro Comercial Anónimo, aos dois casais de parolos que vos falei e ainda a todos os bimbos ignóbeis que tiveram a infelicidade de passar por mim naquele triste fim de noite. Para esses, que ardam no inferno!

Citações:

“Sarcasm can be a dangerous weapon”
(A.A. – Autor Anónimo)

“Misery is the river of the world”
(Tom Waits)
F.A.R

Segunda-feira, Abril 17, 2006

Amo-vos!

12h15 – O meu sono é avassalado pela “Parabola” dos Tool (sinal de mensagem no telemóvel). “Quem será o doido que me está a acordar?” – é este o meu primeiro pensamento. Abro o telemóvel e reconheço o número do meu amigo David Barata. Viagem para o Porto? Contratações do Benfica? São estas as hipóteses que figuram no meu imaginário…10 minutos mais tarde sonhava acordado que a mensagem do David fosse um pesadelo: “Morreu o Dino dos Morangos ao pé de Alcochete”.

Acordo sobressaltado! Ao meu lado a minha irmã acorda também.
“Paula, morreu o Dino dos Morangos!”. “O quê?!?” – responde a minha irmã de 15 anos completamente surpreendida.
Levantamo-nos os dois e deparamo-nos com o poster do Francisco Adam na porta do quarto dela. Parecia mentira, mas o Dino estava a sorrir para nós. Mas não era só o Dino que para nós sorria. Naquele momento sorriam no corpo do Francisco Adam mais pessoas. Reconheci Miki Féher, reconheci o jovem Bruno Baião. Vi, inclusive, os meus amigos “Taliscas” e “Diler” que desapareceram na flor da idade.

Muitas vezes critiquei os “Morangos com Açúcar”. Muitas vezes não me entra na cabeça aquela deturpação da realidade. Mas confesso: não perco um episódio da série.
Ver o Dino partir é quase como ver um amigo alegre e sempre bem-disposto dizer-nos: “Adeus e até sempre”.
O Francisco foi levado pelo destino, como o haviam sido Féher ou o meu amigo “Diler”.

Ninguém devia morrer tão jovem… mas a vida é mesmo assim e temos de a encarar de cabeça erguida e olhos postos no futuro. Mas a tristeza não passa, a tristeza fica, por muito tempo…

Não lamento apenas a perda do Dino dos Morangos. Lamento o Francisco. Lamento as vezes em que não disse aos meus pais o quanto os amo. Lamento as vezes em que não disse à minha irmã: “miúda, tou cheio de saudades tuas!”. E lamento porquê? Lamento porque não sei se amanhã cá estamos. E antes que seja tarde demais, quero dizer-vos a todos: AMO-VOS!! AMO-VOS MUITO!!! Vamos aproveitar o tempo que nos resta, porque lá em cima o Dino, o Féher, o “Taliscas” e o “Diler” estão a fazer uma “shaker night” em honra à nossa felicidade.

P.R.


Em memória de Francisco Adam
(1983-2006)

Quinta-feira, Abril 13, 2006

Acreditar ou não, eis a questão

Adoro sonhos estranhos.
Uma vez sonhei que estava a acampar com amigos meus em Aljezur (como de costume) a poucas horas de um Benfica x Sporting e apareceu-me o Luisão à frente.
Perguntei-lhe o que ele estava ali a fazer e o defesa central do Benfica respondeu-me:
”Nada.”
Foi aí que o internacional canarinho enfiou-se num mini e começou a fazer esticaria no parque de campismo do serrão. O pó divida-se entre pessoas, tendas e roupas, enquanto o bom do Luís divertia-se à grande (como ele).
O pior aconteceu quando o mini do gigante brasileiro não aguentou tamanho rally e desterrou-se (não havia pista) contra a vedação do parque, enlaçando-se nalgumas folhagens cúmplices dos nossos bons modos na noite anterior.
Antes de ser sportinguista sou um humanista (sportinguista) e corri a ajudar o meu amigo Luís. Ele, coitado, nem contorcer-se podia já que a sua envergadura fazia 3 da do carro mas lá me arranhou que estaria incapacitado para jogar contra o Sporting.
E acordei.

Enquanto via Big Fish, a minha mãe encontrava-se na mesma sala que eu, sentada num sofá atrás do meu a descascar as favas que o meu irmão tanto gosta. Eu detesto favas.
À medida que o filme avançava, a minha progenitora atirava-me perguntas atrás de perguntas, esforçando-se por compreender racionalmente o que via. Foi o maior erro que podia ter feito.
Este peixinho grande só pode ser compreendido por quem vive num mundo desconstruído, por quem aceita o irracional e irrompe de olhos vendados rumo ao mundo da fantasia.
Big Fish só pode ser mágico para quem vê em Tim Burton um autor antes de ver um realizador, por quem reconhece que isto só é chato se nós assim o fizermos, por quem acredita que somos nós que pintamos o quadro da nossa vida.
Vejo Big Fish como o sonho que atrás descrevi, em que abraço o irreal com a força da minha existência e esqueço o que me rodeia.
A verdade é muito aborrecida, Tim Burton sabe disso.
Não pretendo analisar a vertente técnica do universo “Burtonesco”, qualquer pessoa o poderá fazer depois de observar este filme que é a sua obra prima-tia-mãe.
Mas há uma coisa que só eu posso contar: aquilo que senti quando o rio levou o filme.
E o que se passou foi que permaneci ali, cristalizado, a observar sem tomar qualquer tipo de atenção (como é hábito) a cascata das legendas que descia ao ritmo da melodia final.
De repente levantei-me, peguei nas minhas sapatilhas abertas na parte da frente e fui correr até à praia ver o pôr-do-sol.
Ao assistir àquele espectáculo da natureza, percebi tudo.
Mergulhem na ficção dos vossos sonhos e acreditem. Façam pontes e destruam muros.
A vida é muito mais bela para quem acredita.

R.C.

Terça-feira, Março 21, 2006

Quem anda à chuva em Lisboa, afoga-se!

Rui Coelho é acordado com o terno sopro de um berbequim às 8h30. Tal melodia penetrava nos seus ouvidos a uma velocidade considerável e, por sinal, parecia estar a ser transmitida directamente de uma emissora vizinha ao seu apartamento.
Depois de abrir a porta e vomitar um impropério rumo a quem quer que estivesse a compôr tal música, desiste de dormir e vai despachar-se, tranquilamente. A faculdade aguarda-o para mais uma manhã de estudo católico.
Dirige-se bem disposto em direcção ao metro e a música daquele berbequim já está colada aos seus tímpanos. Como é hábito não compra bilhete, as estações exigidas pelo trajecto diariamente percorrido têm as portas abertas.
Arroios, Campo Grande, Cidade Universitária, o trio liberal.
Como de costume já se encontra atrasado e, ao descer no Campo Grande, desliza pelas escadas num slalom formidável, ludibriando pessoas de todos os estratos sociais.O próximo comboio ja uiva ao longe, Rui tem os olhos no chão e os seus ouvidos fazem amor com a cera.
No entanto, ao dobrar a esquina das ditas escadas qual Forrest Gump, tudo muda.

Rui Coelho depara-se com...
347838047098419028489023983192810283910283190290 fiscais do metro. "Picas", na gíria.
Pedem o seu passe (não tem passe) e é então que o jovem algarvio sai-se com a frase mais extraordinária que alguém poderá lembrar-se de dizer numa situação destas:
"Agora não posso." E foge.
A resposta dos responsáveis pela segurança financeira do metro de Lisboa foi imediata e cirúrgica. Qual operação Barbarossa, estes homens com a coluna vertical hirta (homens de família, pais de filhos) trocam sinais, códigos verbais e a tampa salta.
Ele há snipers vestidos de azul, vermelho e branco (moda ultrapassada, diga-se) a surgir por todos os cantos, ouvem-se helicópteros (não se ouvem nada) e não demorou muito até o facínora Rui Coelho, no seu ritmo Susana Feitor, sentir-se agarrado com veemência por braços tonificados (não confundir com doping, falamos de pessoas íntegras) de cólera profissional, já no acesso às escadas que sobem para uma daquelas linhas ferroviárias.
Rui procura o seu passe (relembro que não o tem) e, passados 5 longos e extremamente confiantes minutos de busca pelo mesmo, o rapaz profere mais uma pérola digna de figurar nos anais da História registada da capital portuguesa:
"Não tenho passe."
O final acaba por ser feliz, como deve ser toda e qualquer história que se preze.
Dos 50 euros previstos como multa a pagar em situações “normais de esquecimento”, o preço é puxado (gentilmente) até uns irrisórios 13 000$ que deixarão o aluno da Universidade Católica Portuguesa, pólo de Palma de Cima - Lisboa (ufff...) a pão e água no par de semanas que nos aguarda.
Tamanho desenlace, logicamente, apenas terá sido possível devido à misericórdia daqueles chefes de família, pais de filhos, cujo sentido de ofício nos enche de orgulho.
Afinal, vale a pena encarar o futuro desta nação com outros olhos. Olhos verdes, de esperança.

P.S.: Consta que Rui Coelho, pela hora em que este texto estava a ser concluído (01h42), dirigia-se rumo à cozinha do seu apartamento em Arroios para comer um pão.

R.C.

Segunda-feira, Março 13, 2006

Óscares 2006 - Duas perspectivas

O liberalismo de Hollywood

Por detrás de um grande filme está uma grande banda sonora. Cada vez defendo mais esta teoria e que Gustavo Santaolalla permaneça no activo por muitos e melódicos anos para poder assiná-la por baixo com a sua música fascinante.
Depois de de Amor Cão, 21 gramas ou Diários de Che Guevara, este argentino de 54 anos vê finalmente reconhecido o seu trabalho em Hollywood ao receber o óscar de melhor banda sonora pelo seu trabalho adoravelmente repetitivo em Brokeback Mountain.
A 78ª edição da entrega dos Óscares de Hollywood ofereceu, ao contrário do que muitos apregoam, várias surpresas: Desde logo, o aclamado Brokeback Mountain venceu apenas 3 dos 8 óscares para que foi nomeado. Depois porque, desses 3, apenas o de melhor realizador teve o impacto oscarizado que a obra poética de Ang Lee fazia antever.
Por fim, porque o prémio de melhor filme foi entregue a Crash, a obra-prima de Paul Haggis (Produtor de Million Dollar Baby) que conta a história dramática do quotidiano de Los Angeles, onde o racismo e a intolerância como resultado da diversidade étnica e racial característica da cidade dos anjos constituem o prato forte.
No entanto, o evento que mais me surpreendeu na noite de domingo passado diz respeito ao vinho que rega Crash.
Transpondo o espírito do novo-rico para o novo-amigo, a academia de Hollywood aprimorou a sua faceta liberal e resolveu aderir ao comboio do hip-hop, premiando “It`s hard out there for a pimp”, do filme Hustle and Flow, com a estatueta referente à melhor música original.
Ora se compararmos esta cerveja sem álcool ao vinho do Porto servido por Bird York no seu “In the Deep”, é forçoso reconhecer o ridículo que as gargalhadas (ingloriamente combatidas) do apresentador Jon Stewart (nota máxima na sua estreia) anunciaram após a entrega do dito prémio.
No fim da festa importa reconhecer que o ano cinematográfico de 2005 foi de enorme qualidade, prevalecendo a vitória do filme-mensagem sobre as grandes produções de Hollywood.
Apologia do respeito pelas diferenças sexuais, religiosas ou raciais; respeito pela liberdade de expressão ou o desmascarar dos efeitos colaterais necessários à sobrevivência do monstro capitalista; vários foram os filmes político-sociais premiados na edição 2006 dos óscares. Perdão, Óscares.

R.C.


“And the Oscar goes to…”

Foi da boca de Jack Nicholson que saíram as palavras que causaram a surpresa da noite. O melhor filme do ano acabou por ser, contra todas as expectativas, o drama alucinante de Paul Haggis.
Que me perdoem aqueles que apostavam nos “cowboys” de Ang Lee para ganhar a estatueta, mas “Crash” é um justo vencedor. Esta produção alternativa que nos remete para o mais profundo, conflituoso e paradoxal interior do ser-humano é, sem dúvidas, a escolha certa da Academia. “Crash” é um filme genial que mistura histórias complexas ao estilo de “21 Gramas” com a profundidade sentimental de “Million Dollar Baby” (a este aspecto não é alheio o facto de Paul Haggis, realizador do filme vencedor deste ano, ter sido o produtor do filme de Clint Eastwood).
Mas algo está a mudar no cinema e as nomeações para melhor filme foram a prova desse facto. Os “blockbusters” aprontam-se a deixar cada vez mais espaço para as produções alternativas como “Crash” e “Good Night and Good Luck”.
Saem como grandes vencedores da noite dos Óscares, não só “Crash" e Philip Seymour Hoffman (dono de uma das mais desconcertantes interpretações que o cinema já conheceu), mas também o cinema em si. A qualidade melhora a olhos vistos e esperemos que continue assim, em prol do cinema e em prol de uma melhor consciência crítica.

P.R.

Sábado, Março 04, 2006

The Island of Memoirs

Irlanda: Dublin, Belfast & Causeway Coast

Depois de ter sido apresentado aqui no Desvio do Pensamento o trabalho e os resultados a nível económico das políticas irlandesas (por R.C.), viajei até lá para espreitar um pouco da ilha. Da Irlanda em si, Dublin; da Irlanda do Norte, Belfast e a “so-called” Causeway Coast. E muito ainda há para descobrir naquela ilha.

Ao aterrar em Dublin, a primeira impressão é a de que vou estar não sei quantos dias numa ilha onde não consigo perceber três quartos do que eles dizem. O «Irish accent» aproxima-se, por vezes, do Chinês. Se peço indicações, percebo meio nome da rua que estava à procura; se peço uma Guinness, percebo metade do preço daquilo que realmente tenho que pagar. Se o «British» já pode ser tramado, o «Irish» é… Chinês. De Dublin só conheço os U2 e o Oscar Wilde quando aterro. Saio de lá apaixonado pelo bairro de Temple Bar – com todo aquele ar alternativo e de ter sempre uma boa exposição ou um bom concerto à porta; e com um certo apego ao valor que os irlandeses dão a um bom pub, uma boa Guinness e um bom concerto de música celta… Juntando o Trinity College, a National Gallery, a casa do Oscar Wilde, as várias caminhadas e uma vista de olhos pelo Book of Kells – e saio de Dublin com um sorriso pregado na boca, pronto para continuar a viagem.
Chego a Belfast e desiludo-me em três segundos. Cidade sem furor de beleza. Esburacada por novos investimentos por todo o lado e vestida pelo sem-fim de receio por mais bombas, assassínios ou raptos. Coração dos conflitos político-sociais dos chamados “troubles”, que desde 1969 assombram a parte Oeste da cidade, Belfast resiste optimista quanto ao futuro. Estampado na cara das pessoas estão dois componentes: um passado magoado e um convicto sabor a felicidade para o futuro. Misteriosa mistura que dá uma estranha vontade de enaltecer a cidade. O que me levou a Belfast não foi a sua arquitectura ou os seus monumentos (que em muito me surpreenderam), mas sim a curiosidade por aquela tensão criada pelos “troubles”; os murais protestantes e católicos; os sentimentos de quem vive num dos lados da fronteira criada por tão fortes divergências. E foi isso que vi. De Shankill Road – coração do bairro protestante – até ao bairro católico em Falls Road, senti a tensão, admirei a brutalidade dos murais e ouvi os sentimentos dos dois lados da fronteira. Dispersos ainda entre vinganças e ódios, estes sentimentos são assustadores pela sua magnitude – «Estás a ver esta cicatriz no meu pescoço? Foi a IRA há já uns anos atrás»; «Eu não sou irlandês! Sou inglês e fiel à Rainha! Protestante de gema, nascido e criado em Shankill Road»; «Estás a ver aquele carro ali a 50 metros? Há 4 meses explodiu ali uma bomba armadilhada num carro e eu estava aqui a fumar um cigarro» … A intensidade dos acontecimentos é já quase banalizada por todos, enquanto eu receio, da cabeça aos pés, pela minha permanência até já à noite nestes dois bairros, em muito, ameaçadores.
Parto então para a última etapa desta viagem: a visita à Causeway Coast – costa do topo norte da ilha, recortada por altíssimas falésias e uma natureza pura e sentida. Uma caminhada de 18 km pela costa de Ballintoy a Bushmills, passando pelo fenómeno natural, grandioso e parte do património da UNESCO – Giants Causeway – bastou para perceber a magnífica força da natureza irlandesa. Talvez da Irlanda mesmo em si, daquilo que sempre foi e que, esperemos, sempre será: «an island of memoirs» ... onde nos perdemos muito fundo em nós próprios.
“So peaceful and calmly this place it seems to be,
Yet I stare at it sadly for its thru a picture I see,
This land far, far away from mine
I watch the clock in patient time
For someday soon I’ll touch the sand
Of this calm place called Ireland.”
Chantal O’Connor
J.A.

Sexta-feira, Fevereiro 24, 2006

O Fiel Jardineiro: Duas perspectivas

Óscares e lobos
Há 3 coisas que não gosto: Fazer malas, andar por ruas cheias de presentes caninos e que me forcem a sair da sala do cinema logo após o fim do filme, caso este me tenha agradado. O fim de um filme é, muitas vezes, a consagração viva do mesmo. Assim como há quem tenha o gesto admirável de homenagear pessoas (em vida, imagine-se!) por quaisquer feitos por si realizados, também há quem goste de bajular por telepatia os filmes quando estes terminam. O teatro concebe momentos para a consagração (ou não) dos actores de qualquer peça. Após serem engolidos pela cortina que antecipa o programa de festas, os artistas regressam e são avaliados pela sua audiência. Pois bem, também as legendas sonoras da recta final de um filme devem servir para uma introspecção valorativa do impacto que este teve em quem o vê. Este período, compreendido entre o eterno “FIM” e o reacender das luzes da sala, é um momento íntimo de diálogo entre legendas e espectador, música e ouvinte, escuridão e luz (a nossa). Nestes breves minutos, se o filme em causa nos colou à cadeira como um avião lançado para levantar voo o faz, temos a possibilidade de expressar o nosso obrigado, aquecendo o lugar mais um pouco e entregando o nosso óscar por telepatia. Partilhei esse momento com o resto da sala em “ O Fiel Jardineiro”. Revelo-me derrubado pela primeira obra internacional de Fernando Meirelles (Cidade de Deus). De uma fase anterior ao visionamento do filme em que as minhas expectativas não eram famosas, passei a um estado pós-filme em que me via num silêncio apaixonante e quanto menos falava melhor me sentia. Todo eu era introspecção naquele momento, todo era uma pessoa que tentava ser melhor. Meirelles constrói um enredo à volta do casalinho da ordem, Tessa (Rachel Weisz) e Robert (Ralph Fiennes), cuja convivência é marcada por manifestos conflitos entre o ser e o não ser. A questão de Shakespeare é para aqui chamada na perspectiva de Robert, que a partir de rumores ou interpretações erradas, constrói uma nova realidade na qual encaixa a sua vida conjugal a partir de informações fornecidas directa ou indirectamente pela sua Tessa. No detalhe, as surpresas chovem a um ritmo preciso. Durante duas horas o realizador brasileiro encadeia os acontecimentos pela lógica do nosso raciocínio, dá-nos tempo para a consolidação dos mesmos e, em seguida, destrói-los, colocando tudo em causa. O que pensamos ter apreendido (a medida temporal é jogada de forma muito inteligente) ganha novos significados quando menos esperamos, num processo que tende a forjar a auto-censura do espectador. Meirelles parece criticar o género humano por assimilar determinados estereótipos que turvam a visão real do que nos rodeia. Assim, existe também uma aproximação entre actores e espectadores, com as personagens a mudar à medida que observamos a nossa própria mudança. No Kilimanjaro deste “Fiel Jardineiro” aparece Rachel Weisz, que surpreende tudo e todos depois de nunca ter elevado o razoável do seu desempenho como actriz junto do esplendor da sua beleza. Neste filme a britânica metamorfozeia-se aos nossos olhos com uma facilidade estonteante, encarnando o papel de mulher-menina cuja alegria de viver é tão grande quando o tamanho do seu coração justo. No mais, o drama do que “está escondido por debaixo das pedras” por locais como o Quénia de Meirelles esbofeteia-nos à medida que as legendas finais vão subindo na tela até desaparecerem. Sendo certa a adaptação deste filme ao romance de John le Carré, “O Fiel Jardineiro” aborda o lado escondido do colonialismo, o da subversão dos “mais fracos” perante os “mais fortes” e a impotência que sentem aqueles que tentam remar contra a maré. Os esforços de Tessa e do médico que a acompanha no desvendar de um mistério que envolve uma grande empresa farmacêutica que fornece medicamentos para o Quénia são cortados pela raiz. A ociosidade dos big brothers da “civilização” não só não sacia a fome por justiça que a encaminhava para os ossos esfomeados da população de Nairobi como a enviou precocemente para o céu. Quando temos um coração bom e a consciência leve acabamos por dizer e fazer o que nos vem à cabeça. Embebidos no entusiasmo que nos embriaga, pensamos apenas no consumar do que idealizamos e o pesar das consequências fica de fora. Por vezes corremos rumo à toca do lobo, queremos ajudar a presa lá retida, indefesa, já ferida. O pior é o lobo.
R.C.


Não

Ao entrar na sala de cinema não fazia ideia do que me esperava. Aliás, pensava até que seria apenas mais um filme lamechas todo dramático e acima de tudo enfadonho. É claro que ainda não tinha lido nada acerca do filme, mas ainda assim, tinha três boas razões para o ir ver. A primeira dessa platinada trilogia era Ralph Fiennes. Quem não se lembra da sua fantástica interpretação de um lunático fascista em A Lista de Schindler (Steven Spielberg, 1993)? A segunda razão,Rachel Weisz. Depois do excelente papel desempenhado em O Homem Que Veio Do Mar (Swept From The Sea, Beeban Kidron, 1997) e de ter andado perdida em filmes como A Múmia e O Regresso da Múmia, eis que Weisz volta a marcar encontro com a qualidade, nesta sua interpretação de uma activista humanitária. Por fim, last but not the least: Fernando Meirelles, o realizador de A Cidade de Deus (2002), que nos deixou boquiabertos pela forma como a sua lente capta a violência – e The Constant Gardener, acreditem, não fica a dever nada a obra-prima de Meirelles. Não pretendo com este texto contar a história do filme ou fazer qualquer abordagem crítica do mesmo. Para isso, meus caros leitores, peço-vos que se dirijam às poucas salas de cinema que ainda têm esta fita em exibição.
Pretendo, sim, falar-vos do que senti após as mais de duas horas de cinema com que fui brindado pelo realzador brasileiro. Sem dó nem piedade Meirelles mostra-nos o quão podre este mundo pode ser. Sim, o filme fala-nos de amor, de paixão levada aos extremos (pelas pessoas, mas também pelas suas crenças), mas sobretudo diz-nos da corrupção que corrói o mundo diplomático ocidental, da pobreza e da miséria que se vive um pouco por todo o continente africano, fala-nos de todos os execráveis jogos políticos que visam apenas um e só objectivo: o lucro. O lucro a qualquer custo. A teoria Maquiavélica de que os fins justificam os meios, mesmo que esses meios se tratem de seres humanos.
Depois de assistir a O Fiel Jardineiro, voltei a questionar tudo aquilo que me ensinaram, tudo o que aprendi a questionar desde pequeno: A Democracia.
A cultura ocidental tem, de facto, as suas virtudes, mas, como tudo, tem também os seus inevitáveis defeitos. O mais grave é que esses defeitos, destroem o mundo, consomem vidas a mesma velocidade que nós, ocidentais, consumimos hamburgueres e Coca-Cola, e fazem de nós os maiores monstros de que a história se pode lembrar. Enquanto uns morrem, pagando a factura da nossa luxuosa vida, nós vamos vivendo numa suposta (utópica?) liberdade, correndo atrás de Euros e de Dólares, bradando ao mundo a nossa perfeição.
Dizemos que o mundo islâmico vive cego pela religião, que são uns fanáticos, uns violadores, uns doidos – uns fundamentalistas sem sentido. Independentemente de isto ser verdade ou não (não é o que está em questão), impoe-se a interrogação: e nós? Não seremos também uns fundamentalistas democráticos? Não serão a democracia e a liberdade a nossa religião, no sentido que nos referimos a deles? Será a democracia o projecto (falhado?) de um mundo perfeito, ou apenas um véu que tapa tudo o que se passa no resto do mundo e transforma a nossa inteligência em perfeita arrogância (podem substituir por ignorância, se preferirem)?
Quando o filme acabou, ninguém ousou levantar-se da cadeira. Nem uma única pessoa se mexeu. As palavras não saíam. Não me apetecia falar. Quando finalmente saí, reparei que os outros espectadores, também não vinham com grandes conversas, mas sim com o olhar pensativo e pesado. Talvez pensassem na culpa que germinava dentro deles. Talvez pensassem na revolta que sentiram por saberem que nada irão fazer para mudar alguma coisa.
É triste saber que a miséria que urge neste planeta, é a consequência directa da nossa liberdade, do nosso consumismo, do nosso ridículo futuro manchado de sangue de gente indefesa e inocente. É triste saber que tudo se deve a interesses políticos, financeiros e até pessoais, de um todo poderoso monstro diplomático qualquer. Somos marionetas nas mãos dos nossos políticos. Somos peças viciadas de uma velha e ferrugenta engrenagem.
Se as grandes potências mundiais fossem empresas (e será que não são?), então deviam todas fechar para obras de reestruturação e por tempo indeterminado.
Perto da mesa onde escrevo estas palavras, brincam crianças que desconhecem estas coisas, e passam adultos descontraídamente despreocupados. Até quando continuará este flagelo? A que custo conquistamos nós esta espécie de liberdade?
Não. Não há palavras que possam expressar este meu descontentamento. Quero fugir para um sítio sem palavras, conceitos ou teorias. Quero desaparecer.
F.A.R.
"As soon as you’re born they make you feel small,
By giving you no time instead of it all,
Till the pain is so big you feel nothing at all,
A working class hero is something to be.
They hurt you at home and they hit you at school,
They hate you if you're clever and they despise a fool,
Till you're so fucking crazy you can't follow their rules,
A working class hero is something to be,
When they've tortured and scared you for twenty odd years,
Then they expect you to pick a career,
When you can't really function you're so full of fear,
A working class hero is something to be.
Keep you doped with religion and sex and TV,
And you think you're so clever and classless and free,
But you're still fucking peasants as far as I can see,
A working class hero is something to be.
There's room at the top they are telling you still,
But first you must learn how to smile as you kill,
If you want to be like the folks on the hill,
A working class hero is something to be.
If you want to be a hero well just follow me"

John Lennon

"Big man, pig man, ha ha, charade you are
You well heeled big wheel, ha ha, charade you are"

Roger Waters

Domingo, Fevereiro 05, 2006

“O Idiota Supremo”

Não raras vezes, lemos um livro que nos foi indicado ou mesmo “impingido” por uma qualquer “autoridade superior”. Deparamos, posteriormente, com obras vazias de um conteúdo significativo. A história da literatura muitas vezes sofreu com esta espécie de “forcing” em transformar obras e escritores razoáveis (ou mesmo medíocres) em vultos literários.
No entanto, existem também casos, em que o valor literário e histórico de uma obra é verdadeiramente incontestável. Poderia mesmo citar acerca deste ponto obras como “Os Maias” ou ainda um fabuloso “Hamlet” de Shakespeare.
Nesta minha apreciação vou-me debruçar sobre aquela que considero uma das mais proeminentes obras da literatura europeia: “O Idiota” de Fiódor Dostoiévski.
O “Idiota”, que nos é apresentado pelo escritor russo, simboliza, na minha opinião, não só o mais puro e sofredor dos corações humanos, mas simultaneamente a mais nobre e virtuosa atitude do Homem. Atrevo-me mesmo a dizer que um leitor que interiorize, gradualmente, a obra, se sente a dado momento como que um amigo de Lev Nikoláevitch.
Este príncipe vai mais além do Artur Corvelo “pintado” por Eça. Este Príncipe Míchkin representa toda a ingenuidade, todo o valor e toda a força que um homem pode usar em prol das outras pessoas. Dostoiévski não se limita a apresentar um príncipe simplesmente ”idiota”. O escritor coloca este mesmo “idiota” no mais nobre dos cenários russos onde, as figuras exultantes da alta sociedade, se deliciam com a sua “estupidez” perante pontos de vista que qualquer leitor sensível identifica como demasiado profundos e vanguardistas para a época. Pese embora isso, esses pensamentos baseiam-se sempre numa base sólida que nos faz repensar as nossas simples vidas de cidadãos do mundo desenvolvido em pleno século XXI (atente-se que, o livro foi escrito no final do século XIX, numa altura em que a Rússia se agitava com graves problemas sociais e económicos).
Concluo, não querendo cair na tentação de espelhar neste artigo os traços gerais da obra (o que de resto, seria impossível), que este “O Idiota” é, a meu ver, uma das mais importantes obras existencialistas de todo o tempo. Não um existencialismo explícito, mas um existencialismo subtil. Dêem-me a ousadia de afirmar que: o mundo seria bem melhor, se todos nós conseguíssemos igualar os nossos corações ao de Lev Nikoláevitch, não tendo medo de ser bons, mesmo que para isso sejamos para sempre e inevitavelmente apelidados de: “O Idiota”.

P.S: Deixemo-nos então influênciar por um bom livro porque, como referiu Marguerite Yourcenar (e nos lembra o programa "páginas soltas" numa citação da escritora) : "A palavra escrita ensinou-me a escutar a voz humana."

P.R.

Sexta-feira, Fevereiro 03, 2006

RRRrrrr!!!!

Quando me convidaram para ver o filme sobre o qual me debruçarei nas próximas linhas, pensei que os meus amigos em causa estavam apenas no gozo. “RRRrrrr”?!?! Que raio de filme é que tem como título “RRRrrrr”?!?!
Pois é, acontece que passados largos minutos sobre o fim deste blockbuster de Alain Chabat (realizador de Asterix & Obelix: Missão Cleópatra), parar de rir tinha tanto de 007 como de Missão Impossível.
“RRRrrrr!!!” transporta-nos até à Idade da Pedra, algures onde se falará francês. Duas tribos convivem num ambiente de alguma tensão: A tribo dos “cabelos limpos” regozija-se por deter o segredo do champô (…) e a dos “cabelos sujos” passa o tempo a invejar a limpeza dos cabelos alheios, tentando fugir de si próprios como se foge do perfume que o gás metano produz em contacto com o ar. Cheiros!
Ora esta sátira à pré-história tem como pano de fundo o primeiro assassinato cometido entre homens, ocorrido no interior da tribo asseada. Uma questão carece de uma resposta imperativa: “Se a morte é certa para todos, qual a razão que leva uma pessoa a tirar a vida a outra antes da sua hora?”
Pelo meio, Chabat oferece-nos um rol interminável de acontecimentos “nonsense” extremados até onde a corda aguenta. De alguma forma, a junção dos espasmos de estupidez extraídos das vidas de cada um de nós redundam num filme que torna-se agradável se estivermos prontos a aceitá-lo tal como ele pretende ser: parvo.
Com a participação (algo deslocada, diga-se) de Gérard Depardieu, “RRRrrrr!!!!” é um prato de fácil digestão aconselhado a ser ingerido entre amigos, num ambiente onde o riso espalhar-se-á por contágio.
Um filme que “entra a cem e sai a mil”, como se pede num género destes. Boa refeição!

R.C.

Segunda-feira, Janeiro 23, 2006

Cavaco

Ao votarem em Cavaco Silva para Presidente da República, os portugueses assinaram um novo capítulo na História de Portugal. Ao fim de 95 anos e 17 presidentes representantes da esquerda, Cavaco Silva assume-se como o 1º Presidente da República de Portugal ligado à área política da direita.
Neste momento de viragem histórica na política do país, importa reflectir um pouco sobre o homem que vai presidir ao mais alto cargo da hierarquia política nacional nos próximos 5 anos.
Cavaco esperou muito por este momento, por muito que o negue. A derrota para Sampaio nas presidenciais de 1996 ficou encravada na sua garganta de economista. Quis ter a certeza de que venceria porque sabe que tem algo de especial que mexe com o povo, um dom pouco visível mas que o distingue dos outros de um modo surpreendente e incompreensivelmente visível.
Não é um homem que atraia pela oratória. É tímido, reservado, não convence pelo argumento persuasivo. Não tem alma de político.
E é precisamente por não ter alma de político que Cavaco é a melhor opção para substituir Jorge Sampaio no Palácio de Belém. Não lhe corre no sangue o rio do espectáculo mediático, esse vírus que se alastra com uma facilidade devastadora pelo interior dos políticos e que este algarvio nascido em Boliqueime, de facto, nunca teve nem conseguiu ter.
O que Cavaco tem é um espírito humilde, um sentido de responsabilidade e seriedade necessárias para mergulhar nos seu ofícios com a certeza de que o seu trabalho deve ser realizado com o maior respeito pelos outros e por si. A forma como nunca ripostou aos ataques pessoais de Mário Soares durante a campanha eleitoral são prova evidente disso mesmo.
Fez indiscutivelmente o seu trabalho, limitou-se a defender as suas ideias (concorde-se com elas ou não).
É certo que a sua imagem de homem distante e frio pode afastar as pessoas. Mas o que neste momento Portugal precisa é de um homem que siga a linha de trabalho realizada por Jorge Sampaio no que diz respeito à visão da estabilidade necessária ao exercício produtivo do governo, mas que acrescente algo no sector emocional das pessoas, directamente relacionado com a questão da confiança.
Desfazendo o paradoxo atrás evidenciado, o mito sebastianista umbilicalmente ligado a Cavaco Silva (desde o seu afastamento da política após as presidenciais de 1996), acaba por ter um efeito positivo junto das pessoas.
Os poderes presidenciais previstos na Constituição portuguesa são claros e curtos no seu raio de acção, Cavaco sabe disso. No entanto o respeito que essa imagem sebastiânica lhe confere no que toca ao que os portugueses pensam dele, é uma ferramenta que este pode utilizar no sentido de criar o tão desejado clima de confiança favorável ao investimento público e privado, de modo a que a economia portuguesa seja mais competitiva. Só assim, descansando sobre uma almofada económica confortável, o actual governo socialista poderá desenvolver o conjunto de políticas sociais que melhore o nível de vida dos portugueses, ao invés de o degradar a cada semana que passa.
As mudanças, de um modo geral, têm o condão de agitar o que está calmo e promover reacções no interior das pessoas, que terão reflexos no seu contexto exterior.
A mudança pioneira da Presidência da República Portuguesa da esquerda para a direita é a prova de que Cavaco Silva tem um capital de confiança considerável junto dos portugueses: os resultados da noite passada comprovam-no. No entanto, só o futuro poderá dizer se este economista de 66 anos tem mesmo o que é preciso para que Portugal consiga, finalmente, crescer dentro das suas capacidades. Isto significa afastar dos centros de decisão as tendências megalómanas que são parte considerável do veneno que corrói a nação portuguesa.

P.S – Uma palavra de registo para Manuel Alegre. Sem apoios partidários e concorrendo contra a filiação oficial do PS no apoio a Mário Soares, o deputado e poeta socialista averbou um resultado impressionante. Ao deixar Soares tão distante no 3º lugar e, sendo o único candidato responsável pela dúvida que pairou no ar durante algumas horas face à realização ou não de uma 2ª volta, Alegre viu recompensada a sua coragem e transparência reveladas durante a campanha eleitoral.
A inexperiência que o caracteriza no que diz respeito ao desempenho de cargos importantes da hierarquia política, a par de concorrer com um “vencedor previamente anunciado”, terão impedido o respeitoso e digno Manuel Alegre de levar os seus poemas para Belém.

R.C.

Terça-feira, Dezembro 27, 2005

A Irlanda sabe

O texto anterior chama a atenção para o fogo que arde, mostrou como atiramos a lenha para a fogueira e depois queixamo-nos que "há fogo, há fogo!". Importa talvez saber o que cada um de nós pode fazer para não se queimar e, mais importante, como será possível apagar esse fogo.
O que me toca fazer para mudar as coisas ou, melhor ainda, para proteger-me, ajudando?
Prescindindo, fazendo escolhas, sendo inteligente.

Já que os Corleones deste país empurram o Estado (nós, claro) para investimentos faraónicos como o TGV (mais compreensível) ou a estupidez da OTA (...) e vamos sofrer no bolso como poucos na Europa, há que esquecer a gula e ganhar um pouco de humildade.
Pessoalmente quis ir para Sevilha passar o revéillon. Vou ficar em Portimão e poupo. Pensei em comprar um casaco de cabedal para o Inverno. Amei um em especial, custava 356€. Fiquei com o do meu irmão, custou-me nada.
No futebol está tudo inventado, ganha quem recorre aos exemplos de sucesso e desenvolve o seu trabalho a partir deles. Na política as coisas não divergem muito.
O(s) nosso(s) governo(s) devia(m) baixar a cabeça, ganhar humildade nas suas penas de pavão executivo e recorrer a quem sabe. A Irlanda sabe.

Aliando os fundos estruturais, decorrentes da sua integração na União Europeia em 1973, a reformas profundas de liberalização da sua economia (basicamente dirigida pelo Estado até finais dos anos 80, com resultados "dejà vu"), os irlandeses registaram um crescimento do PIB na ordem dos 80% na última década. E não é só Dublin que cresce e se desenvolve. Todas as regiões da Irlanda registam um crescimento real do PIB e isso também gera um clima de confiança social que estimula o investimento privado. Na Irlanda não se cresce através do betão. As pessoas vivem em bairros semelhantes, com casas baixas e humildes. Não se constroem 7 estádios de raíz para receber uma competição como um campeonato de Europa que sabem não poder suportar. Na Irlanda distribui-se os fundos da UE pela educação, pela formação, pela investigação; potencia-se os recursos humanos existentes. Não se vai para um campeonato de milhões com um saco de tostões. Herdando uma passado de dependência colonial, possuindo um terreno pouco fértil para a actividade agrícola e com uma população que não chega a 40% da portuguesa, a Irlanda revolucionou a sua economia num contexto de moderação da despesa pública, de estabilidade política e social e de um intervencionismo mínimo do estado na economia. Só assim é possível registar uma taxa de desemprego na ordem dos 4%.
Depois começamos a perceber melhor as coisas quando ouvimos (pouco, neste caso) falar de ricos e pobres, depois de conflitos sociais, de prostituição, de toxicodependência, de criminalidade...

R.C.

Tudo a postos!?

Ano 2006 (MMVI) no Calendário Gregoriano. Correspondente aos anos 5766-5767 no Calendário Hebreu e 1426-1427 no Calendário Islâmico. E... a 29 de Janeiro o início do ano do cão para o povo chinês.
Ano 2006 – Designado (não sei por quem) como o Ano Internacional dos Desertos e da Desertificação, mas também o ano em que se celebra os 250 anos de aniversário do compositor austríaco Wolfgang Amadeus Mozart e os 400 anos do nascimento do pintor holandês Rembrandt. Muito bom, mas eu não venho falar disto.

O título deste artigo (Tudo a postos!?) era suposto incluir uma continuação em forma de várias hipóteses, todas elas com um toque, uma conotação, de negatividade tipicamente portuguesa, de comentário feito no autocarro que vai da Pontinha a Carnaxide, de uma simples proposta a uma imediata ou posterior reflexão negativa por parte do leitor ou de simplesmente dar a vontade de responder a este artigo com um comentário. Passo a explicar. O «Tudo a postos!?» seguir-se-ia com a sustentação de várias questões que passo a citar:
Tudo a postos para mais umas eleições presidenciais!? - (A conotação do «mais» é suposto dar aquela força de “serem mais umas”; de realmente não mudarem nada; de um vazio que passará a ser outro vazio) – Tudo a postos para continuarmos a ouvir falar da Ota e do TGV por parte do Governo, com o genial toque de elitismo de nem sequer os portugueses terem a sua palavra, quanto ao SEU dinheiro, sobre duas temáticas que, de uma forma geral, parecem ser condenadas maioritariamente por todos nós!? Tudo a postos para mais uma cambada de ignorantes roubarem o dito Estado, que no fundo somos todos nós, mas que para esses não é mais que uma entidade tão burra e tão fácil de roubar, e ainda vangloriarem-se aos amigos do que conseguiram roubar ao Estado, não percebendo que, no fundo e indirectamente, roubaram esses mesmos amigos que descontam para o tal Estado e que suportaram e suportam todos esses desvios e negociatas feitas ao longo deste anos!? Tudo a postos para mais um ano em que excelentes e dedicados professores (mas talvez poucos) trabalham dez vezes mais que outros que, para além de serem maus professores, contribuem para o degradante estado do ensino em Portugal!? Tudo a postos para mais fábricas serem encerradas!? Tudo a postos para mais um Verão cheio de fogos e secas por todo o país!? Tudo a postos para recebermos mais licenciados desempregados!? Tudo a postos para, mais uma vez, vermos os dinheiros europeus serem gastos (ou enfiados ao bolso) por grande parte da dita classe política deste país!? Tudo a postos para mais umas belas aventuras de corrupção, lobbys, demissões e destituições!? E agora o mundo: Tudo a postos para mais atentados da Al-Qaeda!? Tudo a postos para, como portugueses e europeus, continuarmos a temer a China sem competir à altura!? Tudo a postos para mais não-sei-quantas violações dos direitos humanos por todo o mundo, incluindo os ditos “senhores” da democracia que são os E.U.A. E finalmente, a minha preferida: Tudo a postos para continuarmos a queixarmo-nos sem nada fazer por isso!?

Pronto, era só isto que eu queria dizer. Agora cada um que reflicta e decida o que acha melhor fazer em 2006. Bom Ano!

J.A.

Quinta-feira, Outubro 13, 2005

Desiderius Erasmus of.. Leuven

As palavras não me saem… Tento descrever, de qualquer forma possível, esta experiência de estar a fazer Erasmus em Leuven, Bélgica… Impossível! São demasiados momentos que quero insaciavelmente deixar marcados na minha memória. Sei que ao escrever, fixo-os em qualquer lado, mas simplesmente não tenho tempo para escrever! Quero sentir o máximo deste sítio, das pessoas que me rodeiam, dos ambientes por onde passo. Bruno, Kimley, Vera, Christopher, Gonçalo, Filipa, Diana, Ana, Sara, Rita, Barroso, André, Pedro, Ioanna, Maria, Fernanda, David, Koen, Don, Joana, Rui, Nicholas, Catarina, Daniel, José, Julia, Mariona, Jorge… Nomes de pessoas que representam momentos, conversas, ambientes, risos, sorrisos, stella’s ou whisky’s... Escrevinharei tudo aquilo que se passar, mas não agora – muito cedo para usar a química da nostalgia e da memória. Mais tarde.
Só estas palavras me podem ajudar a explicar o que se tem passado aqui:

"O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis."
Fernando Pessoa
J.A.

Outsider

...Erasmus... experiência e vivência que só me faz olhar para aí e sentir-me a mim mesmo aquele portuguesinho que Miguel Esteves Cardoso escrevia n'A Causa das Coisas. Não há dúvida que Portugal está mesmo no cantinho oeste da Europa. Não há dúvida que eu não sabia mesmo o que significava a Europa como uma união de povos e culturas... Felizmente, nós portugueses, integramos este fabuloso destino da Europa, mas estamos tão desligados dela... que até me arrepia pensar nisso. Estamos fechaditos no nosso país, com os nossos problemazitos, quando cá fora pensa-se em coisas que teriam um grande impacto se fossem absorvidas por todos nós, aí. Refiro-me a coisas como o sentido de responsabilidade assumido pelos povos nórdicos; refiro-me à união dos espanhóis para um fim comum – uma grande Espanha; refiro-me ao poder da fé em si mesmo do povo americano; etc. Só nos falta mesmo acreditar em nós próprios e fazer algo em nome de todos... Esquecer, por momentos, a individualidade e a riqueza pessoal (tão típica do actual português) e acreditar que trabalhamos para bem de todos nós. Para um país que realmente pode ter um futuro muito favorável num espaço tão acolhedor, pequeno e saboroso como é o de Portugal. Só quando isso for absorvido e mentalizado é que deixaremos o nosso saudosismo para trás e acreditaremos na força e cultura que realmente temos.

...Erasmus... experiência e vivência que aconselharia a todo e qualquer português. O quão aprendemos quando estamos longe desse "buraco", faz-nos pensar sobre o que podemos fazer com esse mesmo "buraco". Acredito que se todos nós saíssemos daí por um ano, esse "buraco" passaria a ser o paraíso – que já o é em muitos outros aspectos.

J.A.

Domingo, Setembro 25, 2005

Crash!


Crash fala de racismo, discriminação, egoísmo. Fala de trabalho, imigração, pólvora seca e um anjo (Los Angeles). Ou uma criança, se quiserem. Atira-nos para um buraco escuro, tão escuro que realça o que de pior existe em cada um de nós e em que o erro é notariado de forma vitalícia nos actos do Homem. Este filme, de Paul Haggis, espelha-nos o problema da convivência multicultural, pluriracial e étnica, sendo que cada rua da cidade dos anjos aparece como uma fronteira onde acaba o bem e começa o mal. E o inverso, ao detalhe. Este detalhe faz a diferença, pisca o olho ao (tele) espectador e desaparece sem deixar rasto.
No fundo, Crash é um filme sobre a redenção de uns e a queda de outros, misturando num puzzle pálido, de cores tristes e pequenos laivos de um arco-íris subtil, as evoluções e regressões próprias da (sobre) vivência humana. A mensagem extraída ilibe o Homem de uma natureza má e condena os preconceitos que a sociedade instala na sua mente como a entidade desvirtuadora. É a sociedade que adoece o ser humano, já que o toque de Deus aparece umbilicalmente ligado ao coração de cada um de nós, ainda que de forma quase imperceptível, jogada no detalhe. Brilhante.
R.C.

Sábado, Agosto 27, 2005

Opinião

Só quem não tem os olhos abertos ou quem não entende a realidade que a nossa sociedade enfrenta de momento é que aplaude, com um ar aparvalhado, tudo aquilo que o sr. Dr. Alberto João Jardim disse ontem à noite num comício em Porto Santo.
Gostava de dizer algumas coisas sobre aquilo que foi proferido pelo sr. Presidente.
Bem que gostava de ver se a Madeira se tornasse independente. Criticou o PS por criar relações com os espanhóis. Eu aí não vejo mal nenhum, talvez o investimento traga progresso para alguns dos mais importantes sectores da sociedade portuguesa. A meu ver, o investimento que tem sido aplicado na ilha não tem a mínima capacidade de sustentar uma independência tão utópica. Isto porque, fazer estradas e encher praias com betão não é o mesmo que apostar na educação e na cultura. É a partir destes dois sectores que se poderá dar início a um possível progresso. (asfalto não muda as mentalidades)
Se D. Leonor Teles tivesse realizado tudo aquilo que idealizou (Portugal e Espanha unidos), talvez agora, nós portugueses não tivéssemos que alinhar em aventuras ibéricas. Mas custa-me a perceber o porquê de tanto alarido, sr. Presidente? Falar espanhol ou castelhano incomoda-o? Não devia, quando grande parte dos nossos emigrantes (madeirenses) estão na Venezuela. Cá para mim convinha-lhe umas aventuras latino-americanas!
Com muito orgulho em ser português, não me importava nada de ter um pouco da companhia de “nuestros hermanos”. Afinal de contas se eles investirem, talvez o número de desempregados diminuísse e desta forma viessemos a ter um Portugal mais feliz e mais sorridente.
Por isso espero que quem tem espírito aventureiro não baixe os braços e faça alguma coisa para tirar este país do buraco.
Como várias vezes ouvi: “Quem não arrisca não petisca!”
B.M.

Sábado, Julho 23, 2005

O peso de uma gota

Jean-Baptiste Grenouille é a representação nasal do diabo. Fareja a vida e impregna-se na máquina odorífera que o mundo emana para saciar a sua sede descontrolada, atropelando qualquer obstáculo para se apoderar dos perfumes que o seu faro cardíaco exige.
Mata, ama, destrói e brinca. Grenouille percorre um longo caminho até chegar ao seu troféu, o perfume de uma bela jovem que lhe permitirá reunir o conjunto completo das fragâncias mais requintadas de toda a França. Esse perfume que estimula até ao êxtase a líbido dos seres humanos, levá-lo-á a um patamar estratosférico de adoração, a um (des)controlo doentio do interior de quem o inalar. E tudo isto pelo peso de uma gota. Uma gota que é mais forte que o dinheiro, o poder e os homens. Que não é bebível, que perde o conceito que nasceu agarrado à sua pele, que é a sua pele. Esta gota é comida pela gula insaciável do Homem, o qual nos é apresentado como um animal selvagem, um canibal com pele de cordeiro e olhos de fera que espuma pela boca ao avistar a sua presa. Alguém movido pela pecado e pela carne, que varrerá tudo para satisfazer as suas necessidades. Desprovido de dó, escrúpulos ou misericórdia, de instintos puros e hediondos e espelhando uma inocência cruel. O Perfume, de Patrick Suskind.
R.C.

Domingo, Julho 17, 2005

7 de Julho 2005 - Londres

Mais uma marca profunda na história da humanidade.

Londres desta vez foi o palco escolhido para mais um atentado de consequências trágicas. Comparando com os atentados do 11 de Setembro e 11 de Março não houve grande alarido à volta deste. É de estranhar, isto porque a história veio a repetir-se. Tivemos explosões, novamente em locais públicos, morreram pessoas, muitos ficaram feridos, já para não esquecer o impacto causado ao resto da população que, sem margem para dúvidas, afectou muito a nível psicológico.
Às vezes penso que é bom sermos o “vecino pobre” dos espanhóis, estarmos na cauda da Europa, sermos os piores em tudo, segundo as estatísticas que nos vão sendo apresentadas pelos media. É desta forma que, por enquanto, não nos toca nada. Esta é a única vantagem que vejo em viver neste país. Dêem-se por contentes!
Admiro a forma como os londrinos reagiram a este atentado. Não sei se reparam, mas quando os jornalistas tentavam falar com uma pessoa, a capacidade de descrever aquilo que tinha visto era real, era possível. Ao contrário do que se passou em Espanha, as pessoas só gritavam, choravam, enfim imagens comoventes. De Londres, foi-nos transmitido um certo tipo de tranquilidade provocada pela coragem, de alguém que se apresenta muito acima de tudo aquilo que lhes possa acontecer.
Outra coisa que me chamou muito a atenção foi o facto de estes terem recebido “formação” de como reagir perante uma situação destas. Os resultados estiveram à vista…
Terrorismo é um conceito ao qual nos temos que habituar, um “filme” que já foi visto algumas vezes e que não desejamos estar inseridos. Mas para isso é preciso encarar a vida tal como ela, vivermos o presente e não termos medo de pôr o pé fora de casa.
Tive a oportunidade de comunicar com um amigo meu que desde sempre viveu em Londres e desta maneira gostava de partilhar convosco o seu testemunho:

“It's a very strange time in London at the moment. We're all going about our business as much as normal as is possible at the moment but at the back of our minds is the same thing. There was a bomb scare in the part of London where I live this morning and everytime I get on a bus or a tube the thought passes through my mind. But we all know that you have to carry on, that life could be taken from you at any moment anyway whether it's at the hands of a terrorist, a drunk driver, a sudden heart attack or whatever and just as you can't go through life terrified of being hit by a bus every time you leave the house neither can you let something like this stop you going about your life in a normal way.
One thing that was great to see was that on Thursday night, the day it happened, the pubs were all absolutely full all across London. People had decided to go to a safe place and enjoy themselves with their friends. Now that's the way to deal with international terrorism”

Sei que no início do texto fui um pouco duro na minha opinião em relação ao nosso país, mas como tem sido um assunto tão debatido no nosso blog, abstendo-me de qualquer pormenor, decidi expressar um pouco o meu desagrado na forma como encaramos certos e determinados assuntos. No entanto, há pouco tempo fiquei a saber que, apesar de sermos a “região pobre” de Espanha, estamos à frente deles em muitas coisas. Mas precisamos sem dúvida de mudar as nossas mentalidades. Não sei se isso depende dos nossos governadores, penso que essa mudança está nas mãos do povo. Em tempos fomos considerados os aventureiros, os descobridores, agora sinto que estamos “fechados” relativamente a muita coisa.
B.M.

Segunda-feira, Julho 11, 2005

Guerra dos Sonos

Ontem tive a brilhante ideia de acompanhar os meus amigos numa ida ao cinema para ver o novo filme de Steven Spielberg, “Guerra dos Mundos”.
A obra mais recente do realizador norte-americano baseia-se num ataque de forças extraterrestres (o Mal) contra o planeta terra e as forças humanas (o Bem ou EUA, como quiserem). Algures no meio dessa guerra, encontramos um pai (Tom Cruise) que procura proteger os dois filhos, com os quais não tem uma grande ligação, dos ataques alienígenas.
Captei alguns pormenores deliciosos no desenrolar de “Guerra dos Mundos”.

Não só a palavra “terroristas” já entra em filmes com a conotação que se adivinha, como é possível ganhar quantias astronómicas em receitas de bilheteira com um filme que é dividido por uma parte razoável e outra sem absolutamente nada. Para além disto, observei que a humanidade consegue eliminar o contingente alien com 2 ou 3 lança rockets.
Inclusive, a forma como estes foram destruídos faz lembrar-me um pouco a equipa de futebol profissional do Sporting, versão 2004/2005.
Cheios de açúcar a atacar, davam nas vistas e impunham respeito na forma como tomavam conta dos jogos, dominando-os durante a maior parte do tempo regulamentar. O pior acontecia quando a equipa adversária cuspia veneno de volta, apresentando fragilidades (vidro) a defender que roçavam o confrangedor.
Estava eu a pensar nas saídas aos cruzamentos do Ricardo, quando a certa altura dei comigo envolvido numa guerra fraticida entre as minhas pálpebras e tímpanos. As pálpebras anunciavam o fecho das festividades do dia mas, de alguma forma, os tímpanos conseguiam reter o pano aberto, fazendo valer o seu controlo sobre aquelas de modo a que nunca se fechassem. Este conflito deixou-me de tal forma exausto que ao chegar a casa aterrei (literalmente) que nem a torre de Pisa no meu leito a escaldar de verão. Ao acordar doía-me um pouco a cabeça devido à bebedeira de nada que tinha apanhado na noite anterior.
Existem, assim, alguns pormenores interessantes do ponto de vista da ficção, de efeitos especiais e de pormenores mais relacionados com a montagem dos planos de câmara que abonam em favor de Spielberg. Também a mensagem adjacente à forma como a personagem desempenhada por Tom Cruise cresce ao longo do filme é uma característica positiva do mesmo. No entanto, entre deve e o haver, o saldo final é claramente influenciado por uma segunda metade de “Guerras do Mundo” muito pobre e que conclui de um modo decepcionante a todos os títulos.

Para o realizador de “Jurassic Park” ou “Terminal do aeroporto”, fica a constatação de William Shakespeare:
“True is it that we have seen better days…”
R.C.

Segunda-feira, Junho 27, 2005

O Estado da Nação II

Caro Filipe, o que acontece neste momento é exactamente igual ao que aconteceu à 3 anos atrás com o Governo de Durão Barroso quando este tomou medidas de contenção a vários custos. Agora pergunto-me se estou enganado devido o meu "desconhecimento" nesta matéria, se muitos dos que hoje estão por detrás das medidas de contenção fiscais não foram aqueles que à dois/três anos se revoltaram contra o aumento dos impostos? Não foram os mesmos que te prometeram a ti, a mim e a mais milhões de portugueses que não iriam aumentar os impostos e que iriam desenvolver medidas para criar novos postos de trabalho? Ok, é prematuro avaliar um governo com poucos meses de duração mas se bem me lembro o governo de Santana Lopes não durou tanto como este e qualquer pessoa avaliava o que queria da forma que queria. Ou será que face a isto também o meu desconhecimento é total?

No que diz respeito à questão do aborto eu não me manifestei contra a legalização do aborto, no entanto julgo ser importante haver uma maior maturidade para abordar este tema. Houve uma abstenção de mais de 60% no referendo realizado (facto que ao contrário do que pensavas não me era alheio). Que quererá isso dizer? Não vou aqui publicitar a minha opinião em relação ao aborto e à sua legalização mas se é um tema polémico que seja referendado o mais rapidamente possivel. Já agora, face a um assunto tão importante porque é que o Presidente da República negou a proposta do referendo ser feito em Julho? Ao fim ao cabo pelas manifestações que vimos nos media a abstenção que lembraste não iria voltar a acontecer. Julgo eu!
Em relação a concordar que uma mãe toxicodependente ou seropositiva tenha um filho é claro que não concordo. E deixam de ter relações sexuais? Não. Usam preservativo ou será que é assim tão caro proteger a saúde dos parceiros e evitar o nascimento de filhos indesejavéis.
No entanto se me falares de casos de violação digo te abertamente que sou a favor da realização do aborto.

Por fim, em relação às mulheres optarem por ter ou não um filho sozinhas, se tu concordas é a tua opinião. Para mim um filho quando é gerado é gerado por duas pessoa e ambas têm "voto na matéria". Se a esta preocupação chamas atitude machista, ok, eu chamo respeito e preocupação, quer pela mulher com a qual tivesse gerado o feto, quer com o próprio feto.

Em género de conclusão, parece que só concordamos na alteração de mentalidades, pois seja, ela que venha depressa e assumindo os contornos que forem necessários quer passando pelo Estado quer passando por estas trocas de ideias.
P.R.

Direito de resposta

Este texto visa responder ao texto "O Estado da Nação" publicado neste blog.

1. Três meses é muito pouco para avaliar o trabalho de qualquer governo, quanto mais para compará-lo a outro governo.

2.Quanto à idade de reforma ter aumentado, é uma consequência natural do facto da maior parte da população jovem não trabalhar e viver em casa dos pais até aos trinta anos. Como tal, não há produtividade, não há dinâmica, não há desenvolvimento e acima de tudo não há contribuições suficientes para a segurança social conseguir pagar reformas a pessoas que se reformam cada vez mais cedo e morrem cada vez mais tarde. Resultado: quem paga, infelizmente, são os que já trabalham à quarenta anos, e assim, terão que trabalhar mais uns cinco anos.

3.O aborto:
a) Não me parece que o aborto seja a questão mais debatida actualmente.
b) A relação feita entre o alegado respeito que tens pelas mulheres, e o direito que "nós" homens temos a opinar sobre esta matéria não faz sentido nenhum, é machista e revela um total desconhecimento desta matéria.
c) "Nós" os homens tivemos o direito de votar no polémico referendo e o resultado foi o que se viu. De resto, caso o meu colega P.R. desconheça, esse referendo foi marcado por uma abstenção de 68%. Repito, 68%. Logo, não percebo o desvalorizar deste assunto quando dizes que se trata de uma questão referendada, como se o referendo tivesse resolvido alguma coisa, quando, em boa verdade, esse referendo foi absurdo e deveria ter sido anulado em consequência de uma abstenção horrenda e incompreensível num país que se diz ser desenvolvido. Mais uma vez parece-me que o meu colega desconhece de todo esta matéria.

4.Os jovens já foram e são alertados a toda a hora dos perigos das relações sexuais sem métodos contraceptivos. Não se trata de falta de informação, pois os casos de aborto acontecem em todos os estratos sociais, em qualquer faixa etária, independentemente da instrucção escolar do indíviduo. "...será que não seria mais benéfico desenvolver uma consciência sexual que alertasse os jovens para os perigos de uma actividade sexual sem métodos contraceptivos..." - Perante estas palavras, eu pergunto: será que o meu colega é contra a legalização da interrupção voluntária da gravidez?; Será que o meu colega acha bem uma mãe seropositiva ter um filho?; Será que uma mãe toxicodependente deve ter um filho?

5. Quanto à esquerda portuguesa:
a) O aborto é um problema de todos e não só da esquerda portuguesa.
b) Esta temática já foi levantada por todos os partidos e a todos preocupa igualmente, pelo que especificar a esquerda neste assunto, será, mais uma vez, um desconhecimento total do ambiente político nacional.

6.Quanto à "revolução de mentalidades" é certamente urgente que isso aconteça, no entanto, não é essa a função de um governo, e ainda bem, já que da última vez que alguém conseguiu revolucionar a mentalidade de um povo inteiro, o resultado foi a Segunda Guerra Mundial.
F.A.R.

Domingo, Junho 26, 2005

Temporada de Patos

Gostaria de sugerir mais um filme brilhante que se encontra nas salas de cinema em Lisboa, neste caso, no cinema King.
Temporada de Patos, um filme de origem mexicana e realizado por Fernando Eimbcke, apresenta-se como um possível ícone do cinema contemporâneo. De uma forma extremamente simples, o realizador foi capaz de criar um conjunto de situações que são facilmente identificáveis na vida das pessoas. É o descrever de um momento em que dois jovens apenas querem ter um Domingo para fazerem aquilo que gostam sem que ninguém os chateie. Estes ansiavam por um dia de videojogos, Coca-cola e batatas fritas. Um pouco estranho, mas é o que muitos jovens de catorze anos têm como actividade preferida. No entanto, tudo aquilo que fora planeado toma um rumo diferente. Pelo meio surgem mais duas personagens, um distribuidor de pizzas e a vizinha. Todas as cenas passam-se num apartamento em que um dos jovens vive. O mais engraçado é que, apesar de o fim-de-semana ter sido alterado por causa da presença de mais duas pessoas, assiste-se ao nascer de uma relação algo curiosa, onde os aspectos negativos das vidas de cada um, são partilhados.
É um filme muito simples mas ao mesmo tempo algo complexo. A linguagem também ela muito simples, chega a parecer que foi feita de improviso e que tudo foi filmado com câmaras ocultas. Magnífico...
Como não podia de deixar de fazer, gostaria de partilhar com todos os que lerem este texto a lição que tirei. Através de um recuo no tempo e com a ajuda deste filme, cheguei à conclusão de que muitas vezes aquilo que planeamos, as metas que traçamos e os objectivos que criamos para dar sentido às nossas vidas, por vezes tudo dá uma volta de 180º. O caminho que tentámos construir ganha novas curvas, que chegam a tornar-se distantes daquilo que tínhamos em mente. É bom termos objectivos, mas não podemos contrariar a corrente que a vida, o destino ou seja o que for nos impõe.
Mais não digo porque se não ficaria aqui uma noite inteira a descrever todas as elações que retirei desta obra fantástica.
Não planeiem esta ida ao cinema, apenas peguem nas vossas coisas e vejam. Mas cuidado, que tudo pode mudar de um momento para o outro.

“La peste de la envidia llevó muy rápidamente al perfume de la admiración conforme la simplicidad de la historia, en la cual no sucede mucho, se explota en una manera muy divertida, develando temas sin complicaciones, permitiendo que todo fluya alrededor de los personajes en tiempo y espacio. Al final todo sucedió.
La admiración llevó a la inspiración. Y aquí es donde más agradezco a Fernando Eimbcke, puesto que me dio el regalo más precioso: mientras la película terminaba, sentí la regocijante urgencia de filmar una película. ¿Y porqué no? Él lo hace parecer simple, ya que todo lo que necesitas es un apartamento, dos muchachos, una muchacha y un repartidor de pizza.”
Alfonso Cuarón - DIRECTOR DE CINE
B.M.

O Estado da Nação

É com enorme espanto que passado pouco mais de 3 meses sobre o início da governação socialista olho para o País e vejo que pouca coisa se alterou. Não querendo promover qualquer tipo de concepção ideológica somente gostava que alguém me explicasse o que mudou deste governo para o de Durão Barroso (visto que não podemos chamar Governo aos cerca de 3 meses que Santana Lopes governou Portugal como se este fosse um clube de futebol á beira da falência).
Constato agora que os impostos vão aumentar, a idade de reforma também passa a aumentar, o tão apregoado défice continua elevado e tudo isto depois de na campanha eleitoral quer sociais-democratas, quer socialistas (na pessoa do bem programado José Sócrates, actual primeiro-ministro) terem prometido a diminuição de impostos, a diminuição da idade da reforma, novos postos de trabalho…. E muitas mais medidas que me fizeram pensar que Sócrates era o McGyver da Península Ibérica.
Outro ponto que não posso deixar em branco é a questão do aborto. É certo que é uma questão polémica, como o é a regionalização e o referendo para a constituição europeia, mas será que uma questão que foi referendada à poucos anos merece ser actualmente o tema mais debatido na praça pública portuguesa? Com todo o respeito que eu tenho pelas mulheres eu muitas vezes questiono-me se será que nós homens não temos opinião sobre o destino a dar a um filho, será que não seria mais benéfico desenvolver uma consciência sexual que alertasse os jovens para os perigos de uma actividade sexual sem métodos contraceptivos ou ainda melhor, facilitar a adopção de crianças por casais que não foram bafejados pela sorte de poder ter filhos? Enfim, ou muito me engano ou a polémica do aborto vai continuar por muito mais tempo e vai ser a génese do desentendimento da esquerda portuguesa.
Para terminar gostava de fazer referência aos arrastões a que Portugal assistiu: Carcavelos, Quarteira, Vila do Conde e muitos outros actos de vandalismo que se estão a expandir a todo o território nacional. De forma a evitar situações semelhantes o governo lembra-se de retirar privilégios às autoridades de tal forma que à poucos dias assistimos a uma das maiores concentrações de membros da autoridade de que à memória em Portugal (GNR, PSP, Guarda Marítima…).
Concluo afirmando que me parece que este País “à beira-mar plantado” precisa mais de uma revolução de mentalidades do que propriamente da redução do défice ou da legalização do aborto.
P.R.

Espelhos

3 amigos inseparáveis faziam o caminho de volta a casa pela imensidão de um mar que embala tão rapidamente quanto fere. Dois deles tinham conhecimentos de marinheiro e faziam as despesas do serviço enquanto o terceiro, que era cego, limitava-se a seguir as indicações dos companheiros e a ficar no seu canto.
Já com terra à vista, avistaram uma onda enorme. Tinha a dimensão de 3 autocarros encavalitados uns nos outros e o perigo estava iminente. Naquele momento um helicóptero passou pelo local e desceu para ajudar os tripulantes do barco. Curiosamente, apenas o cego foi salvo e os restantes amigos tiveram de enfrentar a onda sozinhos. Ao pisar terra firme, o cego esfregou os olhos e começou a ver, facto que o alegrou tanto que mergulhou de novo na sua vida quotidina esquecendo-se que os seus amigos estavam a passar por sérias difculdades. Sem dar por isso, este rapaz tinha adquirido outro tipo de cegueira, a do egoísmo.
Entretanto, a onda gigante danificara fortemente o casco do barco, o qual fora levado para longe da costa denotando sinais de destruição profundas na proa, que afundava-se à medida que a onda gigante se afastava atrás deles. Aguentaram-se na embarcação o tempo possível e algumas dezenas de minutos depois tiveram mesmo de saltar para o mar, visto que o meio de transporte que os levava tinha mesmo afundado.
Com muito espírito de sacrifício e entreajuda, os dois amigos percorreram o caminho de regresso a nado e chegaram a bom porto no dia seguinte, exaustos e sem forças. Contudo notava-se nos seus olhos um brilho semelhante ao de uma vela que arde, teimosa, algures no centro de um tufão furioso, sem que haja uma explicação racional para tal. Essa força no olhar parecia dar-lhes energia para mais 3 dias a nadar em alto mar...
Não passou muito tempo até os 3 rapazes se reencontrarem. Quando tal aconteceu, os que ficaram a lutar pela vida pararam diante do amigo, que já não era cego, e fitaram-no sem recorrem ao uso da palavra. Ao ver a sua imagem através do espelho que os olhos dos colegas lhe devolviam, o terceiro rapaz foi ferido de tal forma na vista que voltou a não ver absolutamente nada. Ficou cego a dobrar.
R.C.

Terça-feira, Junho 21, 2005

O toque divino de quem respira

Palavras que voam com um travo a jasmim
Escorrem-me pelos lábios até reencontrarem os traços da tua boca
Têm o valor enfeitado do ouro e do marfim
E embriagam a minha voz até a deixar bem rouca

És o mar em que navega o barco da minha vida,
Baloiço de pano, em ti bordo o meu caminho
Nado e mergulho tranquilo, com a alma destemida
Aturo a sogra, o barulho dos pombos e gosto do vizinho

Salto, pulo, rebolo no chão
Faço cócegas na barriga como se fosse um cão
Deixo-me levar no vento como a saudade
E atraco em tua casa, no cais da felicidade

Agora a chuva cai, é leve e doce como uma cereja
Repousa nos meus poros como quem os beija
Decoro sem dificuldade o nome de cada rua
E adormeço, tranquilo, sentado na lua

Não olho mais em frente, recuso fazê-lo para trás
Devo isso ao toque divino de alguém que respira
Alguém que me sussura ao ouvido que me adora
E a quem eu quis ontem, vou querer amanhã.. e quero agora.
R.C.

Domingo, Junho 19, 2005

«Que é feito da mãe de Minos, Radamanto e Sarpédon!?»

Para quem não a conhece, é aquela senhora já de cabelo grisalho, voz rouca, andar lento e, ultimamente, um pouco confusa das ideias.

Durante toda a sua vida lutou para ter um papel importante no mundo – e teve –, mas parece que já não tem força nem cabeça para alimentar o sonho que ainda hoje anseia – ser senhora do mundo, como foi em tempos passados.

A sua longa existência aparece-nos no seu olhar… Hoje, o seu tempo é passado a relembrar aquilo que presenciou, sentiu, respirou, enfim, que viveu! Mas claro, forte como pensa que ainda é, tenta, de formas incríveis, sobreviver a tempestades e terramotos, mantendo ainda alguma da sua energia para tratar de algumas coisas importantes que se passam no mundo. Para outras, manda bocas ou refila, mas já ninguém, ou quase ninguém a ouve…

De nariz empinado, aceita, estranhamente, de bom grado, a gordura. «Engordar desta forma até é saudável», diria ela. Mas, na minha opinião, deveria, depois de engordar, fazer um pouco de exercício, de forma a fortalecer-se a si própria e à mais recente gordura.

Nos últimos tempos, tem andado um pouco adoentada. Para ela, esta é mais uma daquelas crises que sempre teve. Mas, por precaução, chamou o seu médico lá a casa. Depois de este a ter analisado cuidadosamente, e ter discutido com os seus colegas de profissão, anunciou seca e tristemente:

«A [Sr.ª] Europa não está em crise. Está numa crise profunda.»
J.A.
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Sábado, Junho 18, 2005

Ensaio 3

Desliza
Desliza
Desliza

Por favor desliza.

Lentamente, no meu peito...desliza...

Toca
Toca
Toca-me

Por favor toca-me na alma...toca-me na alma

Lágrimas
Lágrimas...verte lágrimas por mim

Nos meus olhos, lágrimas
Nos meus olhos, azul
Nos meus olhos, tu

Tu, nos meus olhos
Eu, no teu coração

Desliza
Desliza
Desliza, para dentro do meu coração

O sol irá já alto nos nossos intentos
O sol vai orientando o fim

Desliza para dentro de mim.

F.A.R.

Ensaio 2

O sangue que escorre
O homem que chora

Até quando? Até quando?

Aldeias multicolores
Transcendência efectiva

Até onde? Até onde?

Caleidoscópios a preto e branco
As árvores encarnadas

Lúcia voando na sua cadeira preferida
Os olhos de Lúcia vêem mais

O homem que chora
O sangue que escorre

Os olhos de Lúcia tudo vêem


Viajo por todo o lado e em todo o lado encontro nada
A vida falha-me.

A vida tem todas as cores

O homem escorre pelo sangue que chora.

F.A.R.

Terça-feira, Junho 14, 2005

Obrigado Obrigado Obrigado

Perdemos três grandes Portugueses nestes últimos dias.
Vasco Gonçalves, Álvaro Cunhal e Eugénio de Andrade foram Homens que, de um modo ou de outro, tornaram-se referências nas áreas em que se distinguiram e são exemplos para todos nós.

Eugénio de Andrade foi enorme no campo da poesia, magia literária que é harmonia, que é equilíbrio, que é arte puxada à forma de uma letra, irmã de tantas outras. É pacificamente tido como um dos maiores poetas portugueses contemporâneos e a sua obra, tendo a sua mãe como base de fundo na qual se inspirou para nos fazer sonhar, tem a riqueza e a versatilidade a que só os grandes podem aspirar.

De Álvaro Cunhal fala o emotivo poeta chileno Pablo Neruda, o qual dedica-lhe um poema, na sequência das constantes detenções e desaparecimentos do eterno líder comunista português, por parte da PIDE. Data de 1967 este excerto de "La lámpara marina":

"Pero,
portugués de la calle,
entre nosotros,
nadie nos escucha,
sabes
dónde
está Álvaro Cunhal?
Reconoces la ausencia
del valiente
Militão?"

Preso inúmeras vezes pela defesa activa dos seus ideias democratas na luta contra o fascismo, o homem que liderou o Partido Comunista entre 1961 e 1992 esteve na linha da frente no desatar da teia em que a máquina salazarista envolveu colónias e povo português.

Vasco Gonçalves, um dos capitães de Abril. O eterno general fez mais do que mobilizar um povo na batalha pela liberdade através da palavra, ele encarnou-a como objectivo de vida num espírito revolucionário de libertação da sua pátria no seu sentido patriótico mais puro, no combate aos repressores do Estado Novo que governou Portugal, na prática, desde 1926 até 1974.

O 25 de Abril terá sido o dia mais feliz na vida destes dois estoicos, e apesar do que sofreram com o levar à prática das suas ideias revolucionárias por uma sociedade livre e justa, são unanimemente considerados como dois homens privilegiados por terem passado por este mundo numa altura tão decisiva para o povo português, deixando uma marca que não mais será esquecida.
Para sempre recordados. Por partidários ou não do partido comunista, por aqueles que discordavam das suas excentricidades convictas e por todos aqueles que viviam dentro do eixo da opressão salazarista como cães que obedecem ao dono (faziam-no, porque não tinham para onde ir e esboçavam um sorriso de admiração escondido do fundo do buraco da sua vida cobarde, face à convicção comovente como estes homens lutam pela liberdade de um povo).
Espreito um sorriso de reconhecimento e de um obrigado na cara de todas estas pessoas a estes três portugueses que elevaram bem alto o nome de Portugal. Eu também o terei.
R.C.

Terça-feira, Maio 31, 2005

Ignoto

Ainda não descobri as razões que me têm proporcionado esta inconstante viagem, onde os caminhos trilhados por linhas tortas se desviam daquilo que eu considero ser o porto de abrigo, o qual onde eu vou atracar e nunca mais ser arrastado por um náufrago que me levará até areias desconhecidas.
A nossa vida é constituída por um acumular de experiências, de acções realizadas que dão cor a uma história. E eu pensava que já tinha um número de experiências suficientes para dar iníco ao prólogo de um livro. Enganei-me...; esta luta - repleta de páginas soltas, as quais nunca terão uma ordem, - tem sido causa de tanto suor reflectido, de encontros com novas realidades que ainda se apresentam muito desfocadas.
Ando desencontrado... mas para já não me quero encontrar. Quero vaguear um pouco mais por este mundo da dúvida. Aquele que me empurra para valas onde o erro se esconde...
O que é certo é que os dias bons existem e os maus também. Por isso vou encarar, durante mais uma linha recta da minha vida, esta sina inevitável. A meta será alcançada quando sentir que me encontrei e dessa forma, ser capaz de me teletransportar para o reino onde paira um aroma de serenidade. Onde cada passo dado é acompanhado por uma melodia de fundo. Por isso vou procurar encontrar um meio termo, um ponto central onde seja possível sentar-me, olhar para um lado e para o outro e ficar na dúvida qual dos dois escolher. Vou olhar para o horizonte de cada um, deitar-me e sorrir, por achar graça em não saber o que há para lá dessa linha.
O nevoeiro do dia-a-dia dará a provar-me a amargura da vida e o pôr-do-sol a paz de que o meu coração tanto apela.
B.M.

Sexta-feira, Maio 27, 2005

O sentido

“Contos Exemplares” é uma obra de Sophia de Mellho Breyner Andresen recheada por um conjunto de textos, neste caso, contos que se apresentam carregados de subjectividade e por uma vertente extremamente humanista, que tem a capacidade de dar largas à imaginação do leitor. Toda e qualquer interpretação estará revestida por uma visão única, com perspectivas e entendimentos diferentes de outros.
Apesar de os contos em geral serem acompanhados por uma linha misteriosa, apenas um foi capaz de suscitar em mim o interesse ou mesmo a vontade de reflectir sobre cada parágrafo, frase, palavra e pontuação.
O conto “O Homem” foi o único que ocupou na minha mente um lugar eterno, isto porque remete para um tema que raramente é questionado, o sentido da vida. “O Homem” descreve vários elementos do nosso dia-a-dia, as horas, o movimento cosmopolita, o stress que nos é imposto e o desaparecimento dos poucos minutos que temos para pensar em nós. No meio deste turbilhão citadino, três personagens fazem uma história. Um homem com uma criança ao colo e uma mulher que no meio de um oceano humano pára para observar a decadente imagem do homem e a divina beleza da criança.
É bem visível que em todos os contos a autora tenha tentado colori-los com um guache religioso, mas fê-lo de uma forma tão subtil que nem nos apercebemos das pinceladelas mal dadas.
Com um olhar agora mais virado para o conto, a própria sociedade que nós criámos é anti-natura. Nós conseguimos ter o poder de nos auto-destruir, afastando-nos de questões existencialistas de elevada importância. Os dias correm ao ritmo de uma montanha russa, tal como a velocidade da onda humana referida no conto. O que acontece, é que tornamo-nos cada vez mais em seres anónimos sem capacidade de justificar a razão pela qual existimos. Os nossos cérebros são ocupados de tal maneira que nos levam por vezes a agir irrazoavelmente. Adoptamos o sistema mais simples, que é o de viver como se não existíssemos e de evitarmos os debates “filosóficos” sobre esse mesmo sentido.
Estaria a mulher à procura de algo? Seria o homem das barbas pontiagudas, com aspecto de mendigo, “Deus”? E a criança?
Mas o que realmente procurava aquela mulher? Talvez uma alternativa ao sentido de viver. E será que ela já tinha um caminho definido? Talvez não, isto porque se o tivesse nunca teria abandonado aquele ritmo robótico daquela corrente humana.
A meu ver, hoje em dia somos obrigados a nos afastar de certas formas celestes que nos poderiam dar a conhecer a verdadeira Natureza. Aquela que nunca foi nem nunca será transformada. Onde não existem alternativas porque tudo tem uma razão de ser. Os olhos da mulher fixaram-se numa imagem que lhe proporcionou um verdadeiro bem-estar. Todos os sons, luzes, movimentos que a rodeavam desapareceram e num curto espaço de tempo, as três personagens foram inseridas num círculo harmonioso. Ela, percebeu definitivamente que vive na palma da mão de uma entidade divina e que se for capaz de encarar isso com toda a sua fé, será uma excepção envolta em felicidade no centro de uma mundo tão superficial.
O homem morreu e desapareceu, talvez devido às pessoas não quererem encará-lo como a razão de existirem. A imagem pobre que ele apresentava é o símbolo de abandono daqueles que acreditavam e que hoje, já nem se lembram que um dia acreditaram. A criança, com certeza que simbolizava a beleza para aqueles que tiveram a coragem de acreditar que a vida não é vivida somente à superfície da pele. É também vivida de forma interior.
Ter fé basta viver-mos conscientes de que estamos vivos. Aquela mulher precisava de “Deus” para se sentir viva.
B.M.

Quarta-feira, Maio 25, 2005

OUI - NON

A Europa encontra-se a um passo de decidir muito do seu futuro. E porquê? Porque a França, dividida entre o sim e o não à Constituição Europeia, galopa a um ritmo infernal por um caminho incerto...

Em primeiro lugar, há que ter em conta a importância da opinião francesa neste referendo. É que este país foi um dos mais importantes fundadores da União Europeia, tendo uma voz que ditou muito daquilo que foi até hoje feito «em nome da Europa». Contribuiu com personalidades de todas as áreas, incluindo um dos símbolos do pensamento actual europeu – Jacques Delors. A “casa” europeia foi construída com “alicerces” franceses e conservada com muitas “paredes” francesas. Desta forma, compreender-se-á que a sua opinião é de extrema importância para todo o povo europeu.

Mas o que se debate hoje em França ultrapassa a própria ideia da «construção europeia». Debate-se desde a integração da Turquia à U.E. à forma como os franceses entendem que Jacques Chirac não tem ouvido o seu povo (facto que incontornavelmente o fez ser quem é), passando pelo recente alargamento da Europa a 25 e por temáticas como o “offshoring” de postos de trabalho e a globalização. Formas diversas de responder a um referendo que se tornou no “bode expiatório” de imensas temáticas que em pouco dizem respeito ao próprio documento da Constituição Europeia.

Valéry Giscard d’Estaing, principal criador do texto da Constituição, defende o documento, afirmando ser esta «a Constituição certa para a Europa». Num artigo para a revista Time, Giscard d’Estaing admite que, até a ele, este texto dá insónias, mas que a melhor maneira do povo francês responder ao referendo é assegurando o sim, «evitando o cenário de pesadelo» que o mesmo pode criar ao ser rejeitado. Por outro lado, Bruno Gaccio, principal argumentista do programa satírico francês “Les Guignols de l’Info”, defende peremptoriamente o não, afirmando: «Esqueça a Constituição. São os líderes políticos franceses que devemos rejeitar». Desta afirmação é fácil retirar os fundamentos do voto no não. O povo francês está farto da forma como a sua classe política age (como elite governamental), não ouvindo a opinião da sociedade em geral. Não obstante o facto de a França realmente já não se sentir no comando das ideias da Europa, o que leva a confirmar uma tendência já há muito defendida por muitas vozes mundiais. Desta forma, é muito provável que o não ganhe; mas mesmo que não ganhe, pelo menos deste poderoso debate em França, os políticos já não mais esquecerão a importância da voz do seu povo. Os argumentos de ambos os lados são diversos, mas uma coisa é verdade: se os franceses rejeitarem o documento da Constituição, as repercussões serão sentidas por toda a Europa... e o futuro desta será incerto.
P.S.: Pessoalmente, defendo um não francês à Constituição Europeia - mesmo discordando de muitos argumentos e opiniões usadas neste campo -, pelo simples facto de esta opinião ir gerar um fortíssimo debate sobre os fundamentos da Europa, assimilando velhas e novas ideias e problematizações que deverão “paralisar” os europeus para reflectirem um pouco sobre o futuro destes «Estados Unidos». A meu ver, um não significaria uma resposta convicta do povo europeu aos “comandantes” da U.E. para idealizarem e concretizarem, de uma forma convicta, um conjunto de “armas de agir” sobre o poderio europeu face às outras potências mundiais. Pois esta é uma altura crucial para a Europa poder fazer frente às mais poderosas economias mundiais; e um simples erro poderá fazer toda a diferença – daí eu defender um debate realmente alargado e consistente que ponha em acção uma ideia única de uma Europa unida e forte.
J.A.

Terça-feira, Maio 24, 2005

and now for something completely different... the reality

Depois de ter sido apresentado o valor do défice orçamental para 2005, Portugal terá mesmo que “apertar o cinto”!! Mas desta vez terá que ser mesmo apertado por todos, sem excluir as próprias elites governamentais, visto que o défice público calculado até ao fim deste ano é de 9,6 mil milhões de euros, o equivalente a 6,83 por cento do PIB. De facto, este valor, que deixou todo o país manifestamente surpreendido, é exorbitante, sendo quase certo que Portugal será penalizado, pela União Europeia, com um processo por défice excessivo.

Esta é a realidade – Portugal encontra-se numa situação de extrema delicadeza! Todos nós já nos sentimos demasiado “apertados” para abrir os olhos para esta realidade, mas se não o fizermos agora, as consequências desse acto serão incalculavelmente desastrosas. Daí termos que sofrer agora medidas extremamente nocivas para todos nós, mas que ditarão o futuro de Portugal, não obstante o facto de ser um processo que deverá ser conduzido cuidadosamente, de preferência por toda a classe política portuguesa, fugindo a debates internos e partidários.

Em 2001, quando foi anunciada a crise económica em que Portugal se encontrava, na altura pela voz de Durão Barroso, a preocupação era extrema e os cuidados a ter eram muitos. Dessa altura até agora, será um facto dizer que pouco ou nada se fez para mudar a situação do país. Governos sucessivos, cada um com as suas «políticas de ordem imperial», sobrepuseram consecutivamente pequenas matérias àquelas que realmente interessavam e interessam ao país. Não será, a meu ver, necessário explicitar quem é que fez o quê em que altura. Toda a classe política portuguesa é culpada e responsável por não ter respondido prontamente aos problemas que realmente importam ao nosso país. E, desta forma, chegamos a meados de 2005 com um défice orçamental assustador – que deverá realmente assustar-nos a todos, para ver se desta vez a reacção é realmente a união de todo o povo português por uma mesma causa – a nossa “salvação”. Uso a palavra “salvação”, porque, como todos nós sabemos, o poder económico é aquele que «comanda a vida» dos nossos tempos e sociedades, e se não despertarmos agora, mais tarde o resultado será, talvez …quiçá… uma implosão económica parecida à da Argentina há poucos anos.

Neste tipo de matérias lembro-me sempre de um «exemplo espanhol», em que de um governo para outro passam ministros que tutelam pastas demasiado delicadas para serem entregues a um outro dirigente, com uma outra filosofia de trabalho e ideais bem diferentes. Parece que é um facto tremendamente assustador para o povo português manter um ministro numa pasta de um governo para outro (talvez o exemplo de Manuela Ferreira Leite seja dito bem alto, visto termos perdido um cérebro realmente reformista e implacável na pasta das Finanças).
De facto, neste ponto, elogio o povo espanhol e blasfemo o povo português, pela sua fraca visão de um futuro. Pensa-se muito no dia a seguir ao de hoje, em vez de se pensar nesse e nos outros que virão. Pois esta visão é que tornará o nosso país numa nação próspera a nível económico e, consequentemente, a todos os níveis. «São exigidos sacrifícios a curto, médio e longo prazo», escrevia hoje José Manuel Fernandes, em que todos nós temos de cumprir o nosso papel. Pois não é altura para nos dividirmos em partidos e suas opiniões, mas sim juntarmo-nos numa única voz acordada por todos, que faça este país ser uma nação equilibrada e sustentada por alicerces fortes, que não desmoronem nem depois de amanhã, nem daqui a dez anos, mas que sustentem toda uma sociedade que há muito já deveria ter começado a pensar nisso.
J.A.

1984, George Orwell

George Orwell foi capaz de prever uma sociedade que um dia mais tarde viria a ser vítima de uma imensa repressão a nível de sentimentos, acções mais íntimas e primitivas. Nesta sociedade, o que interessava era somente o poder e tudo o que fosse necessário para conseguir ou atingir um certo objectivo era sacrificado com grau nulo de piedade. Aqui, vivia-se num verdadeiro poço onde o prazer, ou mesmo as necessidades do ser humano não se concretizavam. Um poço no qual a liberdade de expressão, a convivência eram apenas gotas de água que se evaporavam com o calor de tanta crueldade. Até mesmo o sexo, era apenas encarado como meio de reprodução.
Sintetizando, Orwell previu uma sociedade incapaz de usar os seus valores.

Em 1984, na descrição do quotidiano dos cidadãos, notava-se que viviam de uma forma muito condicionada. Viviam sobre a alçada do medo. Ao reflectir sobre certos pontos e tendo em conta algumas “ideias” de Luigi Giussani, não sei se estarei errado, mas concluí que a maneira de governar dos partidos não possibilitava o Homem de questionar-se sobre algumas questões existencialistas. Questões essas que não podem ser colocadas de parte no caminho que percorremos, mais concretamente, a nossa vida. A vida é impossível de descrever, e “quem sou eu?”, também o é. Mas o Homem desde sempre foi dotado de consciência e é ela que fá-lo ver o que muitas vezes está certo ou errado. E isto porquê?
Porque o Homem ao sofrer tais repressões vindas de uma entidade desconhecida e ameaçadora, automaticamente entrou em estado de alienação. O “eu” deixou de ser questionado, logo a procura de respostas a estas perguntas interiores foram por assim dizer exterminadas. Winston Smith, o protagonista e todos aqueles que sofreram lavagens cerebrais e “fuzilamentos”são o grupo dos “la resistence”.
Para Winston, os valores vieram ao de cima e este não sendo capaz de fechar as portas aos sentimentos, uns de carácter existencialista, outros de carácter mais banal foi vítima das circunstâncias.
O Homem nunca está satisfeito com aquilo que tem. Uns aceitaram esta forma de vida, não sendo grande parte das vezes, justos para com eles próprios. Outros não. Como diz o ditado, o fruto proibido é o mais apetecido e Winston aparece como aquele que mais o deseja. Em suma, ele apenas tentava ser justo com a sua própria consciência, com o seu eu. Ele é o símbolo da rebeldia, daquele que desafia as leis impostas pelo poder político e as dos sentimentos, mas fundamentalmente mostra uma vontade imensa de não perder o significado do que é viver, de não anular a sua personalidade em detrimento de ideologias absurdas.

No fundo, George Orwell através desta sua magnífica obra proclama por uma democracia, em “Que sempre que qualquer forma de Governo se torne contrária a esses fins (vida, liberdade e a procura da felicidade), tem o Povo o direito de a alterar ou abolir, e de instituir novo Governo…”. Se Winston tivesse tido a oportunidade de alterar alguma coisa, concerteza que teria usado o ponto 1 do Artigo 37º (Liberdade de expressão e informação) da Constituição da República Portuguesa para se pronunciar contra estas barbaridades. Assim, para ele, todos teriam o direito de exprimir e divulgar livremente o seu pensamento pela palavra, acrescentando ainda, a nunca ficar estático ou calado em relação algo que lhe impedisse de aceder à verdadeira felicidade.
Se sabemos que estas formas de governar já existiram, nomeadamente no nosso país com a época do Salazarismo, como é que ainda surgem pessoas que criam ideias com base nestes conceitos? Por exemplo os E.U.A. têm uma “coisa” chamada de Patriot Act. Exemplificando, se comprarmos um livro sobre a religião islâmica automaticamente somos controlados pelo Governo. A verdade é que, nos dias de hoje, nós é que nos submetemos a estas formas de viver. Porquê achar piada a reality shows cujas ideologias deram origem a momentos de sofrimento a milhões de pessoas? Onde está a graça? Basicamente é mais uma prova de que os homens com as mesmas ideologias de Winston lutam e resistem para provar que tudo isso é uma grande mentira. De que quando somos observados 24 horas por dia, a convivência entre as pessoas torna-se um caminho repleto de obstáculos. Deixa de haver intimidade, as discussões surgem e os sentimentos mais profundos nunca vêm ao de cima.
George Orwell escreveu 1984 para explorar o sentido de injustiça, expor uma mentira que ataca como um vírus as grandes sociedades. Nós como cidadãos do Mundo e devemos seguir o que Orwell iniciou na sua obra para que a felicidade, a parcialidade e o surgir de um sentido para a vida sejam conceitos que prevaleçam para sempre.
B.M.

POEMARMA

A pedido de um grande amigo que quis partilhar este poema de Manuel Alegre com todos aqueles que se interessam pela arte de escrever.

Que o poema tenha rodas motores alavancas
que seja máquina espectáculo cinema.
Que diga à estátua: sai do caminho que atravancas.
Que seja um autocarro em forma de poema.

Que o poema cante no cimo das chaminés
que se levante e faça o pino em cada praça
que diga quem eu sou e quem tu és
que não seja só mais um que passa.

Que o poema esprema a gema do seu tema
e seja apenas um teorema com dois braços.
Que o poema invente um novo estratagema
para escapar a quem lhe segue os passos.

Que o poema corra salte pule
que seja pulga e faça cócegas ao burguês
que o poema se vista subversivo de ganga azul
e vá explicar numa parede alguns porquês.

Que o poema se meta nos anúncios das cidades
que seja seta sinalização radar
que o poema cante em todas as idades
(que lindo!) no presente e no futuro o verbo amar.

Que o poema seja microfone e fale
uma noite destas de repente às três e tal
para que a lua estoire e o sono estale
e a gente acorde finalmente em Portugal.

Que o poema seja encontro onde era despedida.
Que participe. Comunique. E destrua
para sempre a distância entre a arte e a vida.
Que salte do papel para a página da rua.

Que seja experimentado muito mais que experimental
que tenha ideias sim mas também pernas.
E até se partir uma não faz mal:
antes de muletas que de asas eternas.

Que o poema assalte esta desordem ordenada
que chegue ao banco e grite: abaixo a pança!
Que faça ginástica militar aplicada
e não vá como vão todos para França.

Que o poema fique. E que ficando se aplique
a não criar barriga a não usar chinelos.
Que o poema seja um novo Infante Henrique
voltado para dentro. E sem castelos.

Que o poema vista de domingo cada dia
e atire foguetes para dentro do quotidiano.
Que o poema vista a prosa de poesia
ao menos uma vez em cada anos.

Que o poema faça um poeta de cada
funcionário já farto de funcionar.
Ah que de novo acorde no lusíada
a saudade do novo o desejo de achar.

Que o poema diga o que é preciso
que chegue disfarçado ao pé de ti
e aponte a terra que tu pisas e eu piso.
E que o poema diga: o longe é aqui.


in O Canto e as Armas

B.M.

Palavras

... Quero falar contigo debaixo dos lençóis, ter como companhia uma luz-ambiente de tom avermelhado a pintar as paredes do nosso quarto e que ela repouse somente nos contornos de parte do teu rosto, quadro de uma vida que é metade de mim. Quero levar uma cama para a praia e dormir lá contigo. Lá, onde as ondas do mar envolvem a areia como uma mãe abraça um filho ...
Areia, lençóis, abraços, mar, nada. Quero acordar!
Quando acordo sei que as palavras são como a peneira que tapa o sol, líxivia barata que limpa o meio e suja nas pontas. E eu sinto-me sujo de confusão e estou viciado nesta lixívia. Preciso dela como de oxigénio, é o que me mantém a respirar dentro do buraco onde o meu coração caíu ha demasiado tempo, julgando ter alugado um apartamento na condomínio da felicidade.
Sei que os olhos falam mais do que as palavras. Muito mais.
Quero acreditar nisso, quero ser isso. No dia em que o conseguir deixo de escrever estas merdas e dormirei em paz, com o coração tão oco de dor quanto eu sonho que um dia ele fique.
R.C.

Sábado, Maio 21, 2005

Bunker da alma

Que vida estranha, dever amar mas não poder escolher,
realidade cruel, dever parecer e iludir ser,
estranho mundo, carrossel de vidas que nos ilude, nos transforma,
nos modela a um ritmo alucinante,
quero viver, quero ser eu, ser puro,
ser ingénuo, ser dono e unico inquilino da minha verdade,
construir um Bunker na minha alma onde só entra a minha felicidade,
alimentar o meu ser com a pureza de uma vida que nunca devia ter deixado de o ser,
quero respostas, quero perguntas,
tenho fome de ansiedade e sede de receio,
quero viver, quero viver e que ninguém o tente fazer por mim...

Olho o céu e minh'alma anseia liberdade,
liberdade...esse destino erróneo para o qual não há caminho,
olho á minha volta e a alegria reina,
Oh destino cruel de sentimentos escondidos na ânsia de viver,

A minha paixão é a vida, nobre e humilde,
rica e pobre,
alegre e triste,
A minha paixão és só tu meu triste fado,
dá me alento e ensina me a viver...

P.R.

Sou uma pedra fria

Sou uma pedra fria, cinzenta, chutada para longe por todos.
Sou a erva daninha, verde e odiosa que por todos é pisada e deitada fora quando moribunda.

Ah!Mas há-de quem me chute!
Mas há-de quem me pise!

Eu sou uma fronteira,
Todos me queriam com uma côr, com uma bandeira
Todos me queriam religioso e hipócrita
E afinal tudo o que eu quero é das palavras a magia – a verdade!
Sim, porque a verdade ainda existe...

Sou uma pedra fria, sim.Cada vez mais fria, aliás.
Quero flores vermelhas no meu jardim, pétalas macias caindo na minha face...
Passar naquela rua côr-de-rosa, eu quero
Pisar aquela areia de música,
Molhar os lábios naquela espuma de poesia
Extrair a consciência da demência do dia-a-dia
E disso viver como se de ar azul se tratasse...

E queriam-me obediente e submisso
Calado e sem lágrimas, queriam que eu fosse
Um líder, o maior – um Deus!
Mas eu sou apenas um ser subversivo, insolente
Como todos aqueles que morrem sózinhos...

E quando eu morrer não quero cá lágrimas nem falsos lamentos,
Lancem-me alcoól, injectem-me inconsciência
No sangue que há-de arder nas chamas do inferno...

E eu hei-de gritar como uma fria pedra grita nas frias chamas do paraíso
E que por força do meu fado, que seja por força de minh’alma,
Que a palavra liberdade conste no meu letreiro,
Naquele meu lugar derradeiro...

Ah!Mas há-de quem me chute!
Mas há-de quem me pise!

Que a liberdade será o meu letreiro,
Aconteça o que acontecer, no meu momento derradeiro!!
F.A.R.

Pedaços da minha vida

A tua voz droga-me...
Perco-me nestas horas de cimento-chuva
Vida perdida e já diz o povo,
Muita parra e pouca uva

Leva-me, vento, para bem longe daqui
Onde o mar embala-me num sonho madrugador
Aurora fértil de campos que eu nunca vi
Onde os pássaros cantam o teu nome em meu redor

Sonho em agarrar o ar,
Torná-lo meu amigo, irmão de toda a vida
Chovo paixão até o peito rebentar
Escrevo para ti com a alma nos dedos, minha querida...

As palavras pesam-me, apoiam-se em mim
Rejeitam tudo o que é normal e enfadonho
Prostituta é a minha alma, cheia de peças que respiram no fim
Vendidas ao mundo pelo rasto de um sonho

Do açucar, faço vinagre com matrículas distorcidas
Escondo as sombras que queimam a lua
Congelo o inferno e saro as tuas feridas
Pedaços da minha vida, que é tua...

R.C.

Quinta-feira, Maio 19, 2005

É?

O que será?

Será?

Sim ou não?

Não?

Sim?

Quiçá!

Depois desta breve introdução permitir-me-ei dizer que Não! Visto que é permitido tal circunstância sem haver qualquer motivo absoluto para tal ocorrência. Daí que tenhamos certas e determinadas instâncias que nos dizem que somos autorizados a tal, contudo vamos ao terreno explorar a situação levada a cabo e constatamos o oposto, será que isto é o real? O que será o real? Saberemos nós? Penso que ninguém sabe efectivamente o que será passível ou não de possibilidade, contudo e não desdenhando penso que estará em certa ordem por descobrir o que pode ou não ser, não obstante dizem que é, mas eu discordo porque na prática não é.

E quem saberá?

Tu?

Eu?

Vocês?

Nós??

Quem sabe se é ou não realmente, é a população em geral, vulgo as pessoas, mas tendo em conta que a maioria das pessoas não sabe o que pensa, ou se sabe o que pensa não se consegue exprimir correctamente, penso que no fundo ninguém saberá se tem possibilidades ou não de existência, mas e se tiver? Quando é que iremos descobrir isso? Amanhã? Depois de amanhã? Daqui a mil anos? E se já foi descoberto e não fazemos a mínima ideia. Hipótese: Um mendigo durante o reinado de Leão XV rei de Inglaterra descobriu a solução para este enigma, contudo não se apercebeu de tal coincidência e guardou para si esse segredo! Estaremos nós condenados a não saber a decifração do enigma? Penso que esta é a única e autêntica verdade que poderemos saber.

Só sei que nada sei” Sócrates.

L.M.

Quarta-feira, Maio 18, 2005

Viver

Costumo dizer que distingo as pessoas por duas categorias. Por mais limitativo que isto possa parecer (e é), na minha opinião existem aqueles que têm o sim na ponta da língua e depois existem os outros, os que têm o não.
Nem todas as pessoas são iguais. Muitos nasceram e cresceram em berço de ouro, têm capacidades financeiras para ter o que bem lhes apeteça. Outros há que passam por dificuldades e pouco ou nada têm na vida. Eu encontro-me algures alí no meio e sempre procurei viver com o sim na ponta da língua, porque é esse impulso de vida que me faz levantar com vontade de cantar, de cumprimentar os meus amigos com vontade de sorrir, de ser feliz.
Sim.
A vida, dizem Eles, é muito curta. (E)les têm razão, para quê negarmos aquilo que nos pode fazer sorrir, para quê preocuparmo-nos com o que não tem importância, para quê abdicarmos do que sonhamos para agradarmos a quem apenas queria ser como nós?
Andamos aqui neste mundo vestidos de vidro a tentar fugir da morte, fechando-lhe a porta à chave quando ela a qualquer hora acabará por entrar pela janela, sem avisar e levar-nos consigo.
Sejam parvos, sejam tolos e inconvenientes. Sejam crianças, sejam loucos e felizes.

R.C.

Closer

Closer, mais que uma história de vida é uma história de vidas vividas até ao mais profundo da razão humana. Um romance fabuloso que mexe com todos aqueles que têm a coragem de amar outra pessoa. Com desempenhos fabulosos, principalmente de Clive Owen e Natalie Portman, Closer transporta-nos para um universo de relações desastrosas, sonhos falhados, fantasias inverosiméis e acima de tudo: acompanha nos no regresso á monotonia das relações que embora não sejam aquelas que desejamos, são aquelas que nos transmitem maior estabilidade.
Como diria o poeta: "O Amor tem razões que a própria razão desconhece" e ao contrário de muitos outros filmes, Closer não priveligia essa velha máxima e mostra-nos uma realidade tal e qual esta é. Podemos, por exemplo, ver a ganância na personagem de Jude Law que termina sozinho ou o receio, medo de amar e regresso a uma vida estavél na personagem de Julia Roberts.
A própria banda sonora que nos acompanha neste cruel retrato da realidade está intrinsecamente ligada ao desenvolvimento do filme pois como a letra de The Blowers Daughter realça I can't take my eyes off of you...until i find somebody...
P.R.

Mondovino

De uma forma incrivelmente bem feita, Johnattan Nossiter conseguiu criar um filme onde o mundo do vinho e o da política andam de braço dado.
Um filme que não se traduz somente num documentário como também num espelho que reflecte o poder do mundo ocidental e sua influência na forma de pensar das pessoas. Num estilo muito romancista, Mondovino apresenta-nos os testemunhos daqueles que temem o conceito de capitalismo/globalização e daqueles que, sob a alçada de um efeito hipnotizante, apenas pensam em lucro. Lucro esse onde a dignidade, os valores morais e a história familiar não podem ser obstáculos nas decisões tomadas perante papéis que determinarão o futuro de uma marca de vinhos.
Começando pela perspectiva daqueles que se encontram em vias de extinção, os pequenos produtores deram-nos a conhecer a razão porque produzem vinho.
Estes, proprietários de poucos hectares, dedicam-se a esta actividade como um artista dedica-se à sua. Aos olhos destas minorias, é uma actividade onde o sucesso só é obtido quando existe harmonia, quando o produtor entra em sintonia com o objecto. “ Para produzir vinho é preciso fazê-lo como um poeta, é preciso haver uma ligação espiritual com a terra”. Cada pequena parcela de terreno tem o seu próprio resultado final. Para explicar isto, um “terroir” que se encontra virado para onde o sol nasce dará uma uva com sabor diferente de aquele que se encontra virado para onde o sol se põe. Desta forma, para eles é incompreensível como o conceito de globalização esteja a ser inserido neste pequeno mundo.
Cada vindima é vivida com intensidade. O amor que foi transmitido a cada raiz, o cansaço de tanto suor escorrido nos campos, o transpor da própria personalidade para o sumo de cada uva é que será, para eles, o resultado de um bom vinho e por conseguinte o orgulho da sua marca.
Numa perspectiva oposta a esta, vem “o grande mundo”, o mundo capitalista, onde não há lugar para poemas ou poetas, para sentimentalismos. Este é constituído por multinacionais que querem produzir nos três continentes, mesmo que a tradição não seja essa. Para estes produtores o importante não é através das suas terras produzir um vinho com características únicas. Aqui deixa de existir o conceito de qualidade que rapidamente é ultrapassado pelo de quantidade. As marcas vão além fronteiras e dependentemente de o vinho ser produzido na América do Sul, na Ásia, nos E.U.A ou na Europa o rótulo será sempre o mesmo. Vinhos que não passam de um resultado plastificado, onde o paladar e aroma são criados em laboratórios e não através da cultura praticada à muitos anos atrás.
Portanto, recomendo o filme a quem ainda tem dúvidas sobre a realidade onde se insere. Não vale a pena distorcê-la porque está mesmo dividida em dois pólos longínquos um do outro.
Eu prefiro o método tradicional onde os valores morais estão acima de tudo, onde a humildade é um facto e onde o resultado final traduz-se em toda a dedicação aplicada a qualquer actividade. Outros com certeza que terão como preferência o lado plastificado, em que a dignidade é uma utopia. Aqui tudo é superficial – Será isso relevante? - A vontade de lutar contra isso já é pouca.
B.M.

Terça-feira, Maio 17, 2005

La Bella Società

No outro dia estava a conduzir o meu Ferrari 560 Testagrossa e deparei-me com uma indagação deveras questionável. E ainda me pergunto sobre essa indagação, na medida em que qual será a nossa missão neste mundo?

Será que a vida estipulada pela nossa sociedade é mesmo assim que deve ser vivida? Ou seja, será que devemos estudar, tirar um curso, conhecer uma rapariga, casar com ela, ter filhos, ser avô e mimar os netos? Sendo que os nossos filhos fazem o mesmo caminho que nós.

A meu ver não! Eu penso que nos devemos amotinar contra esta sociedade que nos restringe, que nos prende, que nos impede de sermos nós próprios, de extravasarmos os nossos reais sentimentos e sensações, afinal de contas quem quer ser mais uma formiga trabalhadora? Presa a toda a corrupção presente no mundo, confinada a mexer apenas com o que é ordenada? Sempre a trabalhar para as formigas rainhas que são os chefes capitalistas que a mim apenas me metem nojo por se aproveitarem do trabalho alheio, do suor de outrem.

Não é difícil mudar esta situação, basta que haja uma consciencialização por parte da massa populacional em geral, não é preciso haver líderes, porquê que as pessoas não podem pensar por elas mesmas e serem o que elas mesmas querem sem recorrerem a ordens de pessoas que possivelmente não têm nenhuma ligação com o assunto!

“Pessoas oprimidas não podem permanecer oprimidas para sempre” Martin Luther King.

L.M.

Something about Football

Um artigo acerca de futebol que não cai no ridículo hoje em dia é quase uma missão impossivel. Críticas a arbitragens, a sistemas, a jogadores e treinadores são uma constante nos jornais especializados na matéria.
Este texto visa, não falar sobre árbitros ou sistemas, mas sim sobre a emoção e entusiasmo que o futebol faz sentir naqueles que o vivem com intensidade e fervor. Pessoalmente sou um grande adepto do desporto em geral e do futebol em particular, não nego mesmo que choro, vibro, riu, etc., com os resultados da minha equipa.
O futebol é um dos traços mais característicos da nossa cultura, bem como o fado, e embora haja quem goste e quem não goste, temos de admitir que hoje em dia é o futebol que mais exalta o nome de Portugal em todo o mundo. Basta irmos ao estrangeiro e dizer que vimos de Portugal para automaticamente ouvirmos : Figo, Ronaldo, Deco ou mesmo o longínquo Eusébio.
No fim-de-semana passado, o jogo entre o Benfica e o Sporting fez parar o País, assim como o jogo entre o Sporting e o CSKA irá igualmente fazer. Nesses momentos sentimos toda a ansiedade, toda a alegria, toda a tristeza que se pode imaginar. Não sejamos mesmo hipócritas e admitamos sem medo nenhum que numa altura em que o País está de rastos é o futebol que dá alguma alegria e esperança à nossa população.
Resta me desejar que o Sporting ganhe a Taça Uefa, que o Benfica seja mesmo campeão e que o futebol não se degrade e continue a ser o nosso ópio, o verdadeiro ópio do Povo.

P.R.

Bloguices

O que é escrever? Não me referindo ao acto de pegar numa caneta e começar a sujar o papel com tinta, eu questiono-me acerca do que poderá eventualmente ser o acto de escrever.

A escrita implica processos mentais que não importa referir mas sim a sua intenção, ou seja, a meu ver o objectivo de escrever é a libertação de um constante fluxo de energias e partilha de informação para com outrém, com o propósito de atingir uma pessoa de forma a saber que marcamos a diferença. Neste momento posso afirmar que estou sob o efeito de elementos psico – activos que fazem com que esse fluxo transborde de forma anormal.

Eu aceitei este convite de forma a tentar deixar a minha marca em alguém, contudo duvido que o consiga, visto que acho que apenas alguém no mesmo estado de espírito que eu conseguirá sequer perceber o que está aqui escrito. Tento neste blog não recorrer a temas já propostos anteriormente, como o futebol, musica e politica, e isso resta-me com pouca coisa para escrever sem ser uma critica à nação que eu amo e vejo cada mais na ruína (sim sou bastante patriota, infelizmente), ou então como um amigo meu diria: “deslizar na maionese”

A maionese tem uma essência bastante estranha, na medida em que busca varias coisas ao mesmo tempo e temos de ter cuidado para quando deslizamos nela não nos deixarmos absorver completamente pelo descalabro ao qual ela nos pode levar e, neste momento, é o que penso que me estará a acontecer, no entanto (Bloqueio mental, é algo que acontece a qualquer um que desliza na maionese e se deixa levar).

Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar.” Bernardo Soares.

L.M.

Segunda-feira, Maio 16, 2005

Captura de Saddam

Este é o ultimo texto que estava pendente para colocar no Desvio do Pensamento. Foi escrito na mesma altura que o anterior e com a sua "publicação" no nosso blog ficam realizadas as minhas ambições de colocar ambos os textos neste nosso projecto.

“A Prenda de Natal”

No passado dia 14 de Dezembro caiu directamente no sapatinho da Administração Bush a prenda que à muito tempo esperavam: a captura do ditador iraquiano Saddam Hussein.
Podemos mesmo dizer que este ano o Pai Natal esteve em grande para os lados dos norte-americanos e devido a isso George W. Bush tem praticamente segura a sua reeleição como Presidente da maior potência do mundo.
A captura de Saddam Hussein, que durante 30 anos governou o Iraque (20 deles com o apoio dos EUA), veio trazer ao mundo Ocidental a ideia de que a partir de agora todos os problemas de segurança ligados ao mundo árabe e ao Iraque em particular serão resolvidos.
Saddam Hussein foi na realidade um tirano, um ditador, um déspota, uma quantidade infinita de barbaridades que nos possam ocorrer, mas a verdade é que nenhum ser – humano merece ser humilhado da forma como Saddam o foi, humilhação ocorrida aos olhos do seu povo e de todo a comunidade internacional e que curiosamente lhe foi “oferecida” pelos defensores do mundo que constantemente apregoam a paz e se afirmavam como os principais respeitadores dos direitos humanos.
Curioso será constatar através de uma análise minuciosa ao passado do “mito Saddam” que os principais culpados da situação ter chegado onde chegou são os EUA que durante 20 anos o tiveram a seu lado e se serviram dele para derrubar políticos que tivessem ideias discordantes das suas e simultaneamente terem no poder de uma das maiores potências petrolíferas e um dos mais importantes países árabes um homem da sua confiança.
Pois bem, o impensável aconteceu: o “menino” Saddam rompeu todos os acordos com os norte-americanos e partiu para a conquista de todo o mundo árabe que ainda hoje se sente dividido em renunciar às relíquias dadas pelos EUA e defender afincadamente os seus interesses, ou caírem na tentação de se juntar aos norte-americanos e beneficiar de todas as “prendinhas” que estes lhes possam oferecer.
É no entanto errado pensar que a situação no Iraque vai mudar com a saída de Saddam e os dados falam por si: há muito mais vitimas norte-americanas e do exército aliado desde que terminou a guerra do que quando esta estava a decorrer.
No entanto a captura de Saddam é um bem mais valioso, somente urge perguntar: Seria só Saddam a ter de pagar por tudo o que fez ao mundo e ao Iraque em particular…?
P.R.

Morte de Yassin

Este texto é de Março de 2004 e retrata o meu sentimento acerca da morte do xeque Yassin, o líder espiritual do Hamas. Desculpem o facto de não ser um artigo actual mas eu prometi a mim mesmo que um dia ia publicar isto no Desvio do Pensamento...

Dia 22 de Março o mundo acorda em sobressalto com a morte do xeque Yassin, o mítico líder espiritual do grupo islâmico Hamas.
Como se não bastasse já o mau clima que se vive no Médio Oriente com um azedar cada vez maior das relações entre Israel e a Palestina, os israelitas ainda se lembraram de meter mais uma grande acha numa fogueira que parece que tão cedo não vai parar de arder.
O mais preocupante, no entanto, surge quando ouvimos o primeiro-ministro israelita, Ariel Sharon, congratulando os militares israelitas por terem morto o “Bin Laden do Médio Oriente”.
Ora surge a questão: Quem é o verdadeiro Bin Laden do Médio Oriente? Seria mesmo o xeque Yassin, que se encontrava num estado de saúde mais que deplorável e que representava mais um símbolo do Hamas do que propriamente um guerrilheiro ou o cérebro de todo a organização?
Será Yasser Arafat que é considerado por grande parte do mundo Ocidental como um homem pacifista que privilegia o diálogo em detrimento dos confrontos armados (embora por vezes não lhes consiga pôr cobro, como é o próprio caso do Hamas) e que já deu várias provas de que não é coadjuvante com os actos terroristas por parte de alguns Palestinianos?
Ou será que é do Estado de Israel que não se contentando com a sua parte do território e com tudo o resto que ao longo da história tem feito ao povo palestiniano continua a querer subjugar o povo da Palestina às suas próprias regras impondo as mesmas na base de uma superioridade ao nível do armamento e da força militar tendo como pano de fundo a ajuda dos EUA?
É óbvio que com este tipo de discurso não se pretende desculpabilizar os palestinianos por todos os danos que já causaram no povo israelita, mas se compararmos as vitimas quer de um lado, quer de outro, facilmente concluímos que a diferença é abismal.
Para além disso, o povo palestiniano não tem a capacidade de entrar no Estado de Israel e disparar sob quem quer que seja somente com a finalidade de encontrar e matar os mais altos dirigentes políticos de Israel, ao contrário do que acontece do outro lado.
No nosso mais íntimo bastaria sentarmo-nos calmamente no nosso sofá (coisa que na Palestina já quase que nem se sonha) e reflectir sobre como nos sentiríamos se víssemos o nosso território ser invadido, a nossa cultura ser subjugada, os nossos amigos partirem, o medo dentro de nós aumentar a cada dia que passa, os nossos filhos morrerem aos nossos braços e toda a nossa vida mudar aos olhos de uma comunidade internacional que se mostra permissiva e cúmplice de tudo aquilo que é feito contra nós. A resposta está no interior de cada um de nós mas não parece difícil adivinhar qual é…
Para concluir resta esperar pela retaliação dos palestinianos, feridos no seu orgulho e com muita vontade de vingar o “eterno” líder espiritual do grupo Hamas… Ainda se fala em III Guerra Mundial e eu pergunto: Ainda querem uma pior que esta?

P.R.

O Início

Antes de mais quero saudar todos os que estão a embarcar nesta aventura que é o Desvio do Pensamento. Este Desvio é acima de tudo o projecto de alguns amigos que numa tarde de sol, numa mesa de um café tiveram a ideia de iniciar algo no qual pudessem pôr em prática tudo aquilo que aprendem no curso e assim começar a desenvolver a sua aprendizagem do jornalismo.
Este projecto é igualmente a mostra de que temos que ser nós a ter a iniciativa para criar coisas novas, já que no meio em que estamos inseridos (meio escolar) existem muitas iniciativas e projectos encantadores... é pena é que esses projectos nunca estejam relacionados com os alunos de Comunicação que são como os orfãos de um sistema que muitas vezes parece que nos despreza.
Depois de muitas indecisões e faltas de tempo cá estamos nós, todos juntos e prontos a atacar este Desvio do Pensamento que estou em crer, ainda vai dar muito k falar...
Quanto à minha participação pessoal, os primeiros textos que vou mandar para o nosso blog foram escritos à cerca de 1 ano atràs numa altura em que o mundo estava (e será que já não está...?) de pernas para o ar.
Camaradas, vamos em frente porque finalmente o Desvio está ai!!!
P.R.

Sábado, Maio 14, 2005

Ensaio

Quero ser livre.
Deixem-me ser livre! Ora, deixassem-me ser livre!
Já não sinto o que sinto que sentia,
e o que senti, já me esqueci, e perdi, nas horas obscuras.
Deixaram-me entregue ao relento,
e o relento abandonou-me naquela praia bonita,
ao lado da vida,
como quem vai para a morte.
O meu coração é um apartamento de luxo com vista para a solidão,
onde os pensamentos pairam em torno de uma estranha fantasia,
de um infinito credível,
eu, que em nada acredito, que em nada sou credível,
que me sinto mais vivo além...do que aqui neste tempo e espaço.
Mesmo não sabendo o que é isto ou aquilo,
mesmo nada conhecendo por inteiro - porque de inteiro nada tenho -
mesmo sabendo que sou aquele que podia ter sido e nunca foi...
ah! Quero ser livre!
Trabalhar é uma canseira e amar dói.
Ter horários humilha, as horas doem na alma,
como uma traição no amor perfeito.
Minh'alma chora por liberdade, ela grita pelo analgésico da vida!
Quero ser livre, enfim, perdido..
Porque a liberdade não se conquista nem com trabalho nem com amor.
Ela vem, bela e elegante, por entre as palavras e a música pura,
ela está nas viagens feitas ao acaso, pela estrada fora,
ela vem por estranhos e ocultos caminhos,
a liberdade é companheira de Diónisos, e assim,
proibida...

F.A.R.

Quinta-feira, Maio 12, 2005

Descansa em paz Jorge!

A melhor forma de começar a minha conta de comentários aqui é fazendo uma homenagem a uma pessoa que nos deixou na noite de sexta passada. Perdeu-se uma pessoa apaixonada pelo futebol, pelas pessoas e pela vida, um Homem que vai deixar muitas saudades entre todos nós.

Tenho a certeza disso, porque eras do Benfica e amaste o Sporting, porque eras meu primo e outras famílias houve que choraram por ti e porque até no momento do Até Sempre brindaste-nos com uma brincadeira que nos comoveu com um sorriso nos lábios. Sabias que o teu coração estava cada vez mais frágil e pediste que tocassem musica angola no teu funeral, a musica que corre no sangue da nossa família e com a qual cresceste ao lado das pessoas que a ouviram ontem de manhã. Pediste alegria e boa disposição na tua despedida,querias as pessoas alegres como sempre foste e sempre serás. E dançaste, como disse o Pêpê à tua mulher quando ela lavada em lágrimas ouviu da boca do filho de 15 anos: "Não chores mamã,o pai tá a dançar lá em cima..."

É essa a imagem que vou guardar de ti primo, a de alguém que viveu para fazer os outros rir e que foi sempre único, em tudo o que fazia.

Descansa em paz Campeão.
R.C.

Quarta-feira, Maio 11, 2005

What about listening to jazz?

Talvez seja melhor começar com um início decente.

O meu primeiro impacto com o mundo do jazz foi com a música “Why Don’t You Do Right?” tocada pelo swinger Benny Goodman e cantada pela voz de Peggy Lee. É simplesmente fenomenal e singular – a voz dela extremamente doce a juntar-se em pleno ao suave clarinete de Benny Goodman – é de notar o pequeno solo quase cliché que sai daquele clarinete –; faz-me lembrar aqueles sons que ouvimos e que inconscientemente cantamos sem saber bem de onde vêm, mas que quando finalmente ouvimos, é quase como um alívio sabermos a sua proveniência. Era este som que me atormentava, mas descobri-o… e adorei-o… há já algum tempo.

Depois deste inocente e repentino encontro com a música jazz, não me lembro de me esforçar por ouvi-la senão de manhã no magnífico programa dos “cinco minutos de jazz” do José Duarte, na rádio. Era quase como uma salvação. Acordar em stress, despachar-me em stress, entrar no carro da minha mãe em stress e finalmente esperar pela selecção matinal de jazz que este senhor fazia (e faz) como ninguém – «passa o genérico, explica minuciosamente em poucos segundos quem vai tocar, e: música… – até atingirmos o ponto de rezarmos por chegar o dia em que temos uma cultura jazzística igual ou superior a este senhor.

Mas foi realmente aos 17 anos que decidi abrir uma pequenina porta desse colossal mundo do jazz, começando então por ouvir algumas coisas de Miles Davis, Duke Ellington, Louis Armstrong e John Coltrane. O momento marcadamente simbólico para mim foi o dia em que “desencantei” um Live in Bologna 1985, já com algum pó, de um tal Chet Baker. Foi aí que realmente comecei a apreciar a música jazz, tendo por base este CD que ainda hoje o guardo com extremo cuidado e segurança, visto ser uma raridade exemplar que me dá sempre um imenso prazer ouvir, seja onde for, a qualquer altura.

Vindo parar a mim doutras partes que não o jazz, Keith Jarrett com os seus The Köln Concert e La Scala, de tão magníficas obras que o são, despertaram-me o interesse de explorar a obra deste pianista, o que levou-me a ouvir de “rajada” o seu trio com Jack deJohnnette e Gary Peacock, com as inigualáveis prestações nos concertos Standards gravados no Japão. Noutras perspectivas da música jazz, Zakir Hussain igualmente me ilustrou bem os seus brutais dotes musicais perante um par de “tablas” – principalmente com Jan Garbarek, John McLaughlin e Hariprasad Chaurasia em Making Music.

De um jazz talvez clássico – não no sentido “morto” e retrógrado desta palavra, mas sim no sentido de lembrar a instrumentalização que esteve na origem e no desenvolvimento da evolução do jazz – até um jazz de fusão electrónica (sendo, por base, a corrente fusion, com as mãos da electrónica). É neste campo que me dediquei mais tempo (e continuo a dedicar), sendo para mim altamente excitante a fabulosa mistura dos ritmos jazz e dos seus instrumentos com uma certa improvisação, por parte do(s) DJ(s), de batidas e misturas, que fazem do jazz algo altivo no campo electrónico. Uma corrente altamente inspiradora que começou com o nome de acid-jazz pelas mesas da dupla austríaca Kruder & Dorfmeister e que evoluiu para muitas formas de encarar esta junção. Acid-jazz, nu-jazz, electro-jazz, alguns nomes que definem, de certa forma, uma mesma corrente.

Espero que o mundo do jazz em geral continue como sempre o vi: uma gigantesca árvore genealógica com um desmedido número de ramificações de géneros e estilos – alguns ramos já estagnados e outros sempre a crescer.
J.A.

Segunda-feira, Março 21, 2005


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